gravidez. aborto.


É apresentado hoje na assembleia da república um projecto de resolução para a realização de um referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez e não queria deixar de dar a minha opinião pessoal sobre este assunto, tal é a sua importância na sociedade portuguesa.
E é importante não só pelo acto em si, mas também por tudo o que o rodeia. Neste aspecto, e sem grandes floreados, realço o seguinte:
Nenhuma mulher, em consciência, usa o aborto como método de controlo da natalidade.
Idealmente, todas as gravidezes devem ser desejadas, usando para isso os métodos de anticoncepção disponíveis e que permitam engravidar na altura que a mulher entender mais conveniente para si e para a criança.
O uso correcto de métodos de planeamento familiar e anticoncepção requer informação exaustiva quer ao nível da família, da escola ou dos serviços de saúde. Implica ainda, o fácil acesso a todos eles. Se ainda assim acontecer uma gravidez indesejada, impõe-se um acompanhamento da grávida, levantamento das condições socioeconómicas e psicológicas, acompanhados de uma tentativa de reverter as possíveis disfunções existentes e assim viabilizar a gravidez. Caso a situação se mantenha e a gravidez prossiga, tem o Estado a obrigação de garantir a subsistência deste novo cidadão e a sua educação em igualdade de oportunidades e direitos seja institucionalizado seja em regime de adopção.
Posto isto, penso que nenhum de nós pode peremptoriamente dizer que é assim que acontece e afirmá-lo seria não menos que uma mentira.
O Estado não tem, nem terá a médio prazo condições de dar essa garantia, não pode dizer a uma mulher, tenha o seu filho que nós garantimos-lhe uma vida digna, não tem, portanto autoridade moral para obrigar uma mulher a colocar na sociedade um ser com futuro incerto, ou mesmo sem futuro, como infelizmente alumas vezes acontece.
Mais, mesmo que essas condições estejam reunidas (como acontece noutros países), é sempre necessário admitir que essa mulher não esteja disposta a passar por essa negra experiência de ter um filho para depois o entregar e há que respeitar essa opção.
Da minha experiência pessoal e profissional, penso poder afirmar que, toda a mulher que decide interromper a gravidez, acaba por o fazer haja o que houver e em quaisquer condições, exactamente por não ter como certa uma ajuda consistente da parte do Estado, ou simplesmente porque não deseja ter o filho em circunstância alguma.
Não é a sociedade que despenalizando o aborto o vai incentivar (como alguns parecem crer), é sim, a mulher que deve ter isto em conta na sua decisão, é ela que tem que optar, não nós por ela.
Este estado de aborto legalmente silencioso mais não faz que empurrar as mulheres para o aborto longe da vista e portanto longe do coração.

Comentários

Miguel disse…
Tocaste num ponto sensivel da nossa sociedade que o referendo não irá resolver tão cedo!
Concordo plenamente contigo!

Bjks da Matilde
Vagabundo disse…
Dou meu apoio incontestável á tua opinião.
Bja Vagabundos
aNa disse…
riquita
gosto imenso da forma como tu expões as coisas.
gosto mesmo!
prontes! gosto!
(e agora vou-me preparar para ir sofrer a ver os lagartos :P)
aNa
Su disse…
estou contigo no que dizes/escreves/pensas relativamente à questão do aborto.
acho inclusive q nem se deveria questionar quem está a favor ou contra!!!!o erro começa com esta pergunta ridicula, pois, não haverá ninguem a favor nem ninguem contra.... mas ....há opções q são tomadas por razões varias
é como do dizes:
" Não é a sociedade que despenalizando o aborto o vai incentivar (como alguns parecem crer), é sim, a mulher que deve ter isto em conta na sua decisão, é ela que tem que optar, não nós por ela."
Su disse…
opsss..............jocass
fico tão empolgada q até me esqueço de mandar jocas
wind disse…
Escreveste tudo e bem! bjs
Unknown disse…
eu não concordo coma forma como a questão se coloca, como tu. mas concordo com a necessidade de se revogar a actual lei e fazer uma nova, para que todos os casais (pq os bébés não são feitos pelo espírito santoQ) possam optar pelo melhor.

tb n concordo com referndos... a coisa nenhuma. vivemos numa républica com sistema repreentativo. infelizmente, a nossa AR é uma palhaçada, mas representam a vontade do povo. somos um povo de palhaços, pronto!!

como dizia... por vezes dar voz ao povo, em forma de referendo, é dar voz a opinion-makers e afins (padres, etc...) que infelizmente se aproeitam do grau cultural do seu público para os influenciar. já é mau que isso aconteça nas legislativas, autarquicas..

mas em referendo, piora, pois vai afectar de uma forma mais directa a vida de muita gente.

ou seja... chamem-me elitista, fascista, reaccionário (apesar de ser mais de esquerda) mas às vezes dá vontade de tirar o cartão de eleitor a muito boa gente. acho que os 18 anos não deviam dar o direito a voto... acho que é preciso fazer-se um teste de cidadania, oua lgo do género!!!

desculpem lá..

acho que já arranjei mais uns inimigos...
Cristina disse…
miguel
sinceramente não consigo antever as consequências deste referendo. pode ajudar, também pode confundir mais ainda. tenho receio da "campanha eleitoral" e das alarvidades que se dizem. aceito obviamente que alguém seja contra, que por motivos religiosos ou outros o não faça nunca, só não aceito a falta de opção e os motivos que se alegam para isso, que a maioria das vezes são inconsistentes e profundamente desumanos, ao contrário do que querem parecer
:)
Cristina disse…
vagabundo
concordamos, é isso.
beijos:)
Cristina disse…
aNa
obrigada.beijinho:)
Cristina disse…
su
sabes que a nossa sociedade nesse aspecto está completamente "contaminada" pela igreja e pela ideia de que quem não aborta vai para o céu e quem aborta vai para o inferno.
talvez isso dificulte uma tomada de posição sem consulta popular, digo eu.
Cristina disse…
bandinho
eu só não falei em casais, para não excluir as grávidas 'sem parceiro'. quando o casal existe, concerteza:)

quanto à legitimidade do referendo, não me escandaliza concordar contigo, embora esta questão seja sempre colocada num ponto de vista muito pessoal, fora de orientações partidárias o que justificaria uma consulta, mas o que já se viu na campanha anterior, foi tudo menos esclarecimento.
beijinho
Indivíduo disse…
Concordo em pleno!

O que tristemente se verifica é que quem quer fazer um aborto faz, e a isso não a volta a dar...entre ser feito na penumbra e sem condições, antes vale ser feito com tecnicos e equipamento especializado e claro com o devido acompanhamento psicologico...

Acho que a esse nivel a nossa sociedade ainda é hipócrita, e apoia-se em falso moralismos para se opor a coisas que muitas vezes fazem( no escuro , claro) acho que na questão do aborto a liberização controlada é necessaria..

beijo
Olhe que não, doutora, olhe que nao!(Isto faz-me lembrar alguém)!O sistema de saúde neste país não funciona praticamente para nada, muito menos para o que para muitos é considerado "intocável"!
Quem tem €€€ faz em Espanha! Quem não tem faz como pode e onde pode...Apoio psicológico? O que é isso? Se há não funciona!A saúde não funciona mesmo!
1 Bj
pedro
jacky disse…
O que eu acho mesmo é que não se deve generalizar: cada caso é um caso e devia ser tratado e acompanhado individualmente e com muito humanismo.
Também concordo que um aborto não se faz assim por dá cá aquela palha e não é justo que as mulheres sem posses morram nas mãos duns habilidosos... :(
Um beijinho
Cristina disse…
gentlemen
concordo contigo. é uma experiência traumatizante e quem decide passar por ela, já amadureceu essa ideia e não volta atrás.
bj
Cristina disse…
pedro
funciona nalgumas coisa, nessa concordo que não.
bj :)
Cristina disse…
jacky
esse é o fulcro da questão.e claro que há casos e casos.
beijinho
Cristina disse…
antónio

respeito, claro, a tua opinião enquanto pessoa que provavelmente faria TUDO para não chegar a essa situação.
mas em relação à vida humana, entendo-a como muito mais que a simples existência. e isso é o que têm uma grande parte das crianças abandonadas por esses centros de acolhimento, existem. e com sorte, porque muitos acabam nos caixotes do lixo.

as condições NÃO existem, desse ponto de vista, criem-nas primeiro, esse será um GRANDE dissuasor.

mas independentemente de tudo isto há o seguinte, NUNCA conseguirás OBRIGAR uma mulher a manter uma gravidez e a passar por um parto SE ELA NÃO QUISER. e se estiver decidida, fará o aborto, não tenhas duvidas.é uma coisa que existiu sempre e sempre existirá!
não destingue classes, nem geografias, nem raças, nem idades.
como se pode estar contra ou a favor de um facto bem real? e condenar elimina-o?

às vezes a maior prova de amor é desistir.
beijo grande :)
Mocho Falante disse…
Pois olha, apenas te digo que me cansa ver as mulheres portugueses humilhadas por terem de fazer abortos clandestinos sabe-se lá em que condições e depois duplamente envergonhadas na hasta publica dos tribunais...

E o que me enerva ainda mais são as fantásticas dondocas adeptas do movimento provida, a debitar discurso contra a despenalização mas entretanto numa ida aos saldos a Londres aproveitam para fazer um abortozito ao preço da uva mijona...ora tenham paciência...

Beijocas
Anónimo disse…
Riquita,
Concordo com as tuas razões, evidentemente. Acrescento apenas que a criminalização do aborto, tendo em conta as mulheres que efectivamente são por ela atingidas - ou seja, as que não têm acesso às tais clínicas - é uma autêntica barbaridade, inaceitável naquilo que dizem ser um estado de direito democrático.
Cristina disse…
mocho
pois isso são cinismos doutros rosários...

beijinho
Anónimo disse…
Riquita

Fez bem em colocar a questão. É útil que compreendamos as mais diversas sensibilidades que se manifestam quando se aborda um tema absolutamente transcendente como este.

Agora, colocar o epicentro deste terramoto no ESTADO, parece-me um erro.

Ainda vivemos um tempo em que muito boa gente acha que a solução dos problemas está sempre nessa entidade (Estado), que é simultaneamente incapaz e arrogante.

Incapaz, porque NUNCA conseguiu gerir fosse o que fosse, quanto mais problemas com este grau de delicadeza.

Arrogante, porque se permite JULGAR mulheres que tomam as suas opções.

Por isso se acha no direito de legislar, até por referendo.

E atenção, Riquita, acho que aqui o que está em discussão é a descriminalização e não a despenalização, que são coisas muito diferentes.

Depois, ainda temos a igreja, que me abstenho de adjectivar, mas que está longe de ser inocente neste processo todo.

Enfim, temos que devolver aos cidadãos o que é dos Cidadãos, ou seja, a sua consciência individual e colectiva, e deixar ao Estado o mínimo de intervenção, forçando-o veementemente, no entanto, ao cumprimento das suas estritas - e de preferência restritas - obrigações.

Esperar mais desse monstro acéfalo é desconhecer a realidade.
Cristina disse…
allien
é a minha opimião, também.
realmente há muita democracia por concretizar:)
Cristina disse…
JC

evidentemente,é um erro colocar alguma solução nas mãos do Estado, simplesmente porque não existe.

se nalguns países as mulheres(se a razão for a falta de meios)podem exitar partindo do princípio que o Estado lhes fornecerá tudo o que precisarem, em Portugal duvido que alguma ponha sequer a questão. e os poucos apoios que existem são autenticamente MENDIGADOS e muitas vezes não conseguidos.

já nem falo das questões pessoais.
Cristina disse…
Antonio

falemos então dos casos de "falta de condições" mas em que a vontade existe, em que parece que estamos de acordo na necessidade de ajuda.
sabemos ambos que esse apoio não existe e você conhece tão bem como eu as condições de fome, maus tratos e outros horrores em que vivem algumas crianças, que nalguns casos acabam por morrer, valeu a pena?

outro exemplo, as crianças mortas à nascença, não são tão poucas como isso (ainda há pouco foi publicado um relatorio sobre maus tratos em Portugal dramático), valeu a pena para eles?

e se a mulher disser que não quer prosseguir com a gravidez, não quer ser mãe, não quer parir coisa nenhuma (não é exagero, não), não lhe interessa e tem horror a crianças. acha que a pode obrigar?
OBRIGAR? acha possivel exercer essa violência sobre ela? não antónio, não é possivel, garanto-lhe.

sim, estou a dramatizar, mas estou também a falar de situações possiveis e reais
Anónimo disse…
Riquita

Estamos de acordo.

Mas nunca é demais lembrar os efeitos perversos do Estado-Providência, quando levado ao limite.

Nos países nórdicos, até final dos anos 70, a intervenção materialmente irrepreensível do Estado só resolveu problemas...materiais.

O que, parecendo muito, é manifestamente pouco numa problemática desta natureza.
Cristina disse…
Jc
com certeza que é.
beijo:)
Bluejustin disse…
Quando uma mulher decide fazer um aborto está a tomar uma decisão que só a ela diz respeito e certamente terá bons motivos para o fazer, por isso sou a favor da despenalização do aborto. No entanto sou contra o aborto, acho que apenas se deve recorrer a ele em casos extremos e nunca como método de contracepção.É a minha opinião neste tema tão complexo.
Cristina disse…
norm
Deus te ouça:))

justin
pode não dizer respeito só a si, mas no fundamental sim.
e evidentemente ninguém é apologista do aborto como método.
beijinho

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