Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.

De Passagem das Horas, Álvaro de Campos

Comentários

Ulisses Martins disse…
É a eterna necessidade do ser humano de fazer parte de algo mais, aglutinando-se, cooperando e tornando-se parte da simbiose colectiva. A mesma necessidade que leva os opostos a atraírem-se e o querer agradar para fazer parte do colectivo.
Um pensamento sem tempo, um tempo de pensar sem limites.
Mocho Falante disse…
é a busca do equilibrio para que o nosso interior se equilibre também...

é um excelente texto de um poeta imortal

bom fim de semana
Cristina disse…
ummartins

os opostos atraiem-se independentemente de qualquer racionalidade, ou de qualquer necessidade. é muito mais básico, digo eu...

beijnhos, bom ver-te por cá:)
Cristina disse…
mocho

tu achas?? engraçado, uma parte de nós procura essa confluencia com o que nos rodeia, levando-nos a entrar por caminhos tão dispares entre si, que não é possivel percorrê-los sem um certo desequilíbrio, ao contrário do pressusposto inicial:(

beijinhos:)
Isabel Filipe disse…
o meu poeta preferido...

belo Post...

resto de bom sábado...


bjs
Caracolinha disse…
Olha ... eu ... de onde é que este Sr Álvaro de Campos me conhece ????

;)
Cristina disse…
a.j.faria

um bom fim de semana também:)
beijo
Cristina disse…
isabel
também é o meu, sempre! companheiro de todas as horas:)

beijinhos
Cristina disse…
caracolinha


do mesmo sítio de onde me conhece a mim:)))))

beijocas poéticas:)
Anónimo disse…
a Maria Betania gravou isto à muitos anos num LP que se chama "Drama III acto", penso que não foi editado em CD, mas vale a pena ouvir...se não conheceres ou encontrares eu tenho um CD gravado a partir do LP,posso-te arranjar uma cópia.
caramela_tonico@hotmail.com
bom fds
beijos
Anónimo disse…
É espantosa esta serenidade numa alma tão instável!
O meu preferido sempre foi Alberto Caeiro,acho que pela ligação à natureza que me recorda as minhas raízes beirãs.
Beijinho
Cristina disse…
anónimo (9:14)

ela diz este poema num disco ao vivo que já não tenho a certeza qual é...será esse? foi assim que conheci o poema:)

obrigada:))beijos
Cristina disse…
lucilia

é?? eu sempre gostei mais de Alvaro de Campos, mas de todos em geral :))

e leio-o n vezes, está sempre ali ao lado:))
Anónimo disse…
Riquita, o disco "Drama III acto" foi gravado ao vivo, por isso deve ser esse.
Como foi o meu LP de cabeceira na adolescência pedi ao meu namorado que me gravasse em CD porque fartei-me de procurar e diziam-me sempre que não foi editado.
se quiseres que te envie uma cópia diz-me como, que o farei com prazer.
beijo

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