
Direitos do leitor
Luis Fernando Verissimo
Já existe um estatuto para os idosos e um para os torcedores de futebol, deveria haver algo parecido para leitores de jornais e revistas. Uma lei que os protegesse não só dos maus-tratos da notícia inexata e do desconforto da má redação mas também dos sobressaltos do cabeçalho exagerado e do enfoque chocante e da irritação com opiniões descabidas. É verdade que, em se tratando de opinião, tudo é subjetivo, e o que irrita um pode agradar a outro. A clássica definição do articulista genial é o que concorda cem por cento com a gente. Mas na falta de um estatuto que defenda o leitor, talvez se pudesse estender o estatuto dos idosos para incluir manchetes perturbadoras e artigos inacreditáveis entre as coisas que não se podem fazer a um velhinho.
Todo o editor deveria pensar seriamente no efeito que terá em idosos fragilizados, antes de planejar uma primeira capa ou publicar uma determinada opinião. Não têm sido poucas as vezes, ultimamente, em que pensei em denunciar às autoridades textos lidos cujo objetivo óbvio era me fazer ter um troço. Mas é claro que todo leitor já tem um direito sagrado e inalienável, que nem sempre sabe que tem e raramente usa. O direito de não ler. Salvo razões patológicas, como o masoquismo, ou o chamado fascínio do abismo, não há nada que obrigue você a ler até o fim o que você sabe que não vai gostar. O pleno exercício do direito de não ler também serve como antídoto para qualquer vocação totalitária. É melhor não ler do que ler tudo e chegar ao fim de uma leitura raivosa pensando em proibir a opinião que desagradou, ou escrever uma carta anônima desaforada ou em difamar o autor e negar o seu direito de irritá-lo. Infelizmente, o que não falta entre leitores são vocações totalitárias. O exercício do direito de não ler também promove o saudável hábito de pensar: “O que eu estou fazendo lendo isto em vez de estar lendo...” e em seguida fazer uma lista mental de todos os que você poderia estar lendo sem perder seu de tempo. Todos os que concordam cem por cento com a gente.


Comentários
Acho que a leitura de opiniões díspares das nossas nos enriquecem, porque há sempre coisas nas quais não tínhamos pensado antes e temos oportunidade de reformular a nossa opinião e melhora-la. A segunda vantagem é saber como pensa a o "inimigo" para melhor nos defendermos... Não será?
Acho que a leitura de opiniões díspares das nossas nos enriquecem, porque há sempre coisas nas quais não tínhamos pensado antes e temos oportunidade de reformular a nossa opinião e melhora-la. A segunda vantagem é saber como pensa a o "inimigo" para melhor nos defendermos... Não será?
bem vindo! e em dose dupla ;))
ora aí esta uma defesa perfeita, conhecer o inimigo:))
e também aprendemos com ele, senão de que nos serviria tê-los??'
mas também é verdade que certas escritas têm instintos assassinos...
poderemos até fazer uma adaptação àquela famosa frase...há 2 coisas que matam de repente, vento pelas costas e certas leituras pela frente....
(no original..sogra..)
beijocas
eu, faço as duas coisas.
bj
a maior parte das vezes, acontece o contrário :)
beijinhos
Só um reparo: para mim, o articulista genial é aquele que me mostra o que eu ainda não tinha percebido...
Embora não sendo prática corrente, penso até que apenas o Diário de Notícias tem um provedor do leitor, com uma coluna semanal.
Onde responde aos leitores que se lhe dirigem a expressar o desgrado, ou agrado com algo que leram no jonral.
Normalmente, incide sobre o tratamento jornalístico das notícias, mas também com erros de português que por vezs surgem.
Mas há que reconhecer que é a excepção!