[L.F.Veríssimo]

Praia é uma república em que todos são iguais perante o Sol.
Nenhuma democracia social é tão adiantada quanto a praia, onde as raças não apenas convivem como fazem tudo para se tornarem iguais. Suam, literalmente, para diminuir suas diferenças.
Os brancos tentam ficar castanhos, embora às vezes só fiquem vermelhos, os castanhos ficam pretos e os pretos já estão prontos. A praia também é a democracia económica com que tantos sonham. É difícil distinguir o rico do pobre sem roupa. Muitas vezes a única diferença entre o biquíni de uma granfina e o biquíni de uma suburbana é a etiqueta, e você não pode ficar pedindo para ver a etiqueta da moça. Mesmo que, muitas vezes, o biquíni seja só a etiqueta. (...)
Na praia só há uma distinção de classes, e esta independe de dinheiro e posição social: a distinção entre os mais bonitos e os menos bonitos. Mas os privilegiados da praia são generosos com a sua beleza, geralmente os que mais possuem são os que mais esbanjam, e todos em volta têm acesso - pelo menos visual - ao seu património. A elite da praia são as mulheres bonitas. Elas têm aquela empáfia, aquela certeza de que merecem tudo que Deus lhes deu, que caracteriza todas as elites. Mas diferentes de outras aristocracias, não guardam seus tesouros longe dos menos favorecidos. Não os depositam em contas na Suíça nem deixam para desfrutá-los apenas em ambientes exclusivos, na presença de outros privilegiados. Quanto mais têm, mais mostram. As mulheres bonitas da praia são pioneiras nesta obra de grande alcance social que é a distribuição de encantos. Todos os avanços - que no caso são recuos - na moda de praia são motivados, acima de tudo, pela consciência de que sonegar beleza dos olhos dos outros é um egoísmo tão grave quanto seria sonegar a paisagem. As mulheres bonitas, cedendo partes cada vez maiores do seu corpo aos olhos de todos na praia, dão lições diárias de desprendimento democrático. Ainda atingirão a democracia plena, não usando nem uma etiqueta.

Comentários

wind disse…
Este Veríssimo é um espectáculo:) beijos
Anónimo disse…
Querida Cristina
Já estou a correr para a praia...
E, muito democrata, vou vestida de quase nada...
O amigo Veríssimo esquece que os muito ricos não vão ás mesmas praias...
Têm praias privadas em que para entrar é necessário pagar...
E estou a falar de Cascais ,por exemplo...que não é nenhum paraíso e até tem maus acessos... mas é privada.

Não decididamente o sol não nasce igual para todos.

Beijos
BOM FIM DE SEMANA :):):)
Lola
Alien8 disse…
Lola dixit... eu acrescento que o Veríssimo se esqueceu da distribuição equitativa da beleza - mas ok, era capaz de ser má ideia hehehe.
Beijocas.
maloud disse…
O texto é uma delícia.
Dito isto, detesto praia. Fiquei alérgica no Algarve. Só lá passávamos as manhãs, porque fazia bem à criançada. Mas a ingrata da criançada, apesar das 5 preguiceiras e dos 2 toldos, punha trombas e de 5 em 5 minutos, perguntava, se já era meio-dia e meia hora. Comprar o gelado, nem pensar! a areia queima. Talvez nadar um pouco. Estás doida! A água está sempre gelada {e estava}. No fim lá vínhamos e no mármore da casa havia aquele krc, krc da areia. Ao fim de 8 dias deste circo, mandei as preguiceiras e os toldos às malvas e instalei-me sossegadamente na piscina com vista para o mar. Todos os anos ia uma vez ao alto da falésia, olhava para o areal e declarava encerrada a minha época balnear.
Só voltei à praia há 10 anos em Forte dei Marmi, perto de Viarregio. Era um Lido {praia privativa} com um restaurante, onde comi as melhores fogaccia da minha vida. A criançada passou lá 15 dias, manhã e tarde sem protestar. Adoraram. Dentro de dez anos repito a dose, sem criançada.
Anónimo disse…
Novo riquismo exibicionista.
Os ricos não precisam exibir-se.
Alien8 disse…
Maloud,
Como a compreendo :)
MariaTuché disse…
Ele lindo como escreve este Homem...viaja-se.

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