

Médico e padre já foram funções de uma só pessoa. Não é à toa que o divórcio forçado entre ciência e fé, firmado no século XIX, tem gerado polémicas até hoje. Após muitas ameaças de paz, as duas partes parecem caminhar para um acordo: médicos admitem o poder da espiritualidade no tratamento das doenças e os praticantes da cura pela alma já não discutem a importância dos remédios tradicionais.
Interessado na correlação entre saúde física e espiritual, o cardiologista Roque Savioli, decidiu investigar a influência do "pecado" no desenvolvimento das doenças cardiovasculares. “O peito é o centro da afectividade. Muitas pessoas aparecem aqui com dor no peito e com exames que nada apontam. Na verdade, é o coração psicológico que está a sofrer. Tratar só o aspecto físico de um doente é tratá-lo pela metade”. [Estadão.com.br]
De facto, a somatização, é um motivo frequente de consulta. É normalmente o coroar da incapacidade do doente em lidar apropriadamente com vários medos e desafios muitas vezes associado a uma elevada morbilidade física e psiquiátrica. É o doente que apresenta queixas específicas e bem definidas, mas em que a investigação se revela totalmente negativa em termos de doença orgânica. É também o doente comummente rotulado de chato, que sobrecarrega consultas "desnecessárias", que a única coisa que normalmente consegue são rótulos, discriminação, impaciência, mas raramente obtém aquilo de que precisa, atenção.
Na verdade, a medicina tem vindo a ser dominada por modelos puramente organicistas, deixando as vivências e a compreensão do doente sem qualquer suporte, dando este vasto campo à exploração dos curiosos e dos charlatães. Defeito de formação? De sensibilidade? Se por um lado, as faculdades são dominadas por modelos puramente organicistas e pecam pela não inclusão nos curricula de disciplinas que ajudem a entender a pessoa e a dinâmica do mundo actual, também é verdade que não se tem dado a devida importância ao diálogo, ao entendimento do contexto afectivo e social do doente, da sua realidade, e à análise de factores predisponentes para este tipo de distúrbio; facilmente se resvala para o rótulo de chato, de piegas, de hipocondríaco, cedendo à pressão do tempo com uma análise apressada de resultados de exames complementares, mais objectivos, mais fáceis de interpretar mas infinitamente redutores.
Harrison,Resnik,Wintrobe,Thorn,Beeson, autores da "bíblia" do conhecimento médico, o famoso Harrison, escrevem no prefácio, ...do médico espera-se também, simpatia e compreensão, pois o doente não é uma mera colecção de sinais, sintomas, disfunções, distúrbios orgânicos e alterações emocionais. Ele é um ser humano que tem medo e esperanças, buscando alívio, auxílio e conforto. Para o médico, assim como para o antropólogo, nenhum homem é estranho ou repulsivo. O misantropo pode tornar-se um habilidoso diagnosticador de doenças orgânicas, mas dificilmente terá êxito como médico. O verdadeiro médico tem uma amplitude shakespiriana de interesses que abarca tanto o sábio como o tolo, o arrogante e o humilde, o herói estóico e o vagabundo lamuriento. Ele cuida de pessoas.
assim é. E esquecemo-nos tantas vezes disso....


Comentários
No entanto, estas certas palavras que escreveste serve, muitas vezes, para que o médico se sinta numa posição superior à do paciente, deitando por terra o seu objecto.
É que restituir a saúde (no caso psíquica) é acima do mais conseguir que o paciente volte a ser o Homem independente que antes fora ou que deverá ser.
beijos
não diria superior, não é bem isso. acho que muitas vezes estamos distrsídos. preocupa-nos descobrir lesões orgânicas e esquecemos as lesões da alma...uma questão de tempo também. não é desculpa, mas se um medico tiver 1 hora para falar, é natural que a conversa vá por outros caminhos com tranquilidade e sem nenhum esforço, quando se está a contar o tempo, é muito mais dificil.
é preciso fazer um esforço, disso não duvido.
beijos, carlos
Wind
beijinhos
Ontem ouvi uma notícia e fiquei a pensar e ao mm tempo, para mim dizia, gostaria de saber o que a Cristina pensa disto. Passo a expor, tentando ser "curtinha":
A lei já permite e na FAC. Abel Salazar (Porto)já se pratica, que licenciados noutras áreas, das ciências às humanidades, possam candidatar-se ao Curso de Medicina, mediante certas provas e requisitos. Para o ano irá ser aberto um concurso especial, a nível nacional, com 5% de vagas, para este efeito.
Falaram colegas seus, dessa Fac. que consideram, um bom contributo, porque a Medicina é transversal, desde a Informática, às mais diversas áreas. E diferentes licenciaturas são um apport para o curso e sua prática.
Pareceu-me interessante esta perspectiva ...
Falava, Cristina dos casos onde há tempo, nos consultórios onde o tempo não se mede em quantidade de pacientes, mas de euros, aí sim o médico pode e deve ser Homem antes de ser médico, para curar a alma, como dizes, ou para devolver a humanidade perdida como eu disse.
Que" de médico e de louco todos temos um pouco" vox populi"
O facto de um médico (a) fazer a reflexão do post, já é muita fruta.
Eu acho que a influência do psíquico nos males orgânicos do próprio, nem a própria medicina ainda a conseguiu medir.Mas que é desmesurada, é.Os médicos + ou - conscientemente tem mêdo desse desconhecido, o que se refletce na relação com o doente, que se torna tecnocrata.
Ao contrário,às vezes a própria Cris se torna terapeutica ( sentido +).Passear nesta avenida é refrescar, é beber uma aspirina pra alma nossa ( eu desalmada me confesso!).
Beijinhos
E para cúmulo, com a falta de respeito para atenderem com horas de atraso aqueles que deles precisam e estou a falar do particular e não do Sistema Nacional de Saúde...
Haja a excepção para confirmar a regra, para felicidade de alguns.
Bolacha
ja existe em História da medicina
o que faz falta é uma cadeira onde se ensine a lidar com o doente para além da doença orgãnica. essa é uma qualidade que uns têm, outros não. mas ninguem ensina:)
beijinho
Abel salazar dizia que "Médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe"...
o que não deixa de ser verdade, a falta desse conhecimento mais abrangente talvez seja um dos motivos desta perda dessa visão integrada do doente.
não vejo nenhum problema a não ser que medicina não se pode fazer como um complemento de formação. quem for para Medicina, vindo de outra área com essa perspectiva, está condenado....a medicina exige dedicação a tempo inteiro. e mais uns trocos...
mas se se estiver com essa disponibilidade, não vejo porque não possa ser um ganho :)
beijinhos
tenho muitas saudades do tempo em que tinha REALMENTE tempo para conversar longamente com os doentes. muitos dos amigos/doentes vêm dessa fase. o grau de intimidade e confiança que se atinge é altamente compensador e cria laços quase permanentes.
infelizmente, agora nem sempre é possível. mas apesar de tudo, vou tentando.
beijinho
'tendii...
os tempos são outros, esse tipo de médico ja não existe. com o desenvolver da ciencia, os medicos, alem de terem mais trabalho, tornaram-se superespecialistas. organicistas.todos têm funções diferentes, o que falta são os tais médicos de familia no sentido mais abrangente do medico que está ali para tudo e que conhece a familia.
nos hospitais estão os outros, os que resolvem os problemas :)
beijinhos