do Expresso-opinião,


um excerto da crónica de MST. Brilhante.


Na mesma Faculdade onde ensina Marcelo Rebelo de Sousa, ensinaram-me dois princípios fundamentais em matéria criminal: um, que só pode ser considerado crime aquilo que a consciência social colectiva reconhece como tal; e, dois, que não há crime sem pena. Do primeiro princípio, resulta que um Código Penal não pode ser cativado por uma maioria, circunstancial ou não, que, sem um largo e pacífico consenso, define em cada momento o que é e não é crime. Conheço algumas mulheres e homens que, em dado momento das suas vidas, recorreram ao aborto. Foi uma decisão pessoal e íntima deles, que não me ocorreria julgar a não ser para dizer convictamente que não reconheço nenhum deles como criminoso. Não reconheço eu nem reconhece seguramente a maior parte das pessoas, incluindo muitos que vão votar ‘não’ à despenalização. Se assim é, porque insistem então em que a lei continue a tratar tais pessoas como criminosas?
Obviamente que a despenalização significa descriminalização. Os apoiantes do ‘sim’ têm medo da palavra e têm ainda mais medo da expressão que Aguiar Branco insiste em utilizar: aborto livre. Mas é exactamente disso que se trata: despenalizar significa descriminalizar e descriminalizar significa que o aborto passa a ser livre nas condições previstas na lei. Não percebo esta hipocrisia do campo do ‘sim’: o que se discute é precisamente isso, se há crime ou não há crime.
Mas, se há crime, há pena - como qualquer jurista não-malabarista sabe. Por isso é que se chama a este ramo do direito Direito Penal. A hipocrisia dos defensores do ‘não’ consiste na versão piedosa e absurda de que se poderia inventar para este ‘crime’ um tratamento especial: continuaria a ser crime, mas sem pena. Ou então, e ainda mais absurdo, haveria crime, processo, inquirições, mas o julgamento, esse, ficaria suspenso. Como se não percebessem o essencial: que o essencial é a humilhação. Marcelo Rebelo de Sousa produziu, a propósito, um fantástico número de contorcionismo jurídico para tentar justificar o injustificável. Teve azar: o ‘Gato Fedorento’ pegou nos seus argumentos e no seu tão publicitado vídeo no ‘You Tube’ e desfê-los à gargalhada, num dos mais inesquecíveis momentos de humor e sátira política de que me lembro.

Comentários

Alien8 disse…
Bem visto, é disso mesmo que se trata.
Parrot disse…
Também é por isto que o gosto de ler, expõe de uma forma muito clara aquilo que pensa, mas não invalida que possa discordar. :)

Eu retive a parte final:
"(...). Porque me impressiona uma sociedade que satisfaz a sua consciência chutando simplesmente os problemas para a clandestinidade e para o código penal"
Anónimo disse…
Sempre que posso (ou me lembro), tento ver os MST na TVI e esta semana ouvi a sua relutância em dizer qual era a sua opinião acerca do referendo, alegando que sendo comentador de uma televisão não o devia fazer... e coisa e tal
A justificação pareceu-me legítima e os jornalista ficaram sem resposta apesar da insistência.

A crónica é, na sua integra, bestialmente coerente e transparente como a água!
MST escreve muito bem.
Escreve para todos.
É o colunista mais comentado.
Neste artigo também escreve que:

Obviamente que a despenalização significa descriminalização. Os apoiantes do ‘sim’ têm medo da palavra e têm ainda mais medo da expressão que Aguiar Branco insiste em utilizar: aborto livre. Mas é exactamente disso que se trata: despenalizar significa descriminalizar e descriminalizar significa que o aborto passa a ser livre nas condições previstas na lei. Não percebo esta hipocrisia do campo do ‘sim’: o que se discute é precisamente isso, se há crime ou não há crime.
Anónimo disse…
Gostei do artigo do MST, como quase sempre gosto.
Ainda bem que o Miguel mudou de opinião, pois apesar de dizer que se absteve no referendo anterior, eu ainda me lembro de o ver a fazer campanha pelo Não ao lado de Laurinda Alves.
A não ser que esteja muito enganada e não me parece que o esteja.
Cristina disse…
marta

ainda bem, só conta pontos a favor da lucidez que eu sempre achei que tem. e não é burro...

beijocas
Cristina disse…
alien

nem mais..:)))
beijinhos amiguito.
Cristina disse…
Parrot

nem mais. quando se tenta resolver um problema social e de saúde com leis repressivas, quer dizer que na prátca não se sabe o que fazer..

beijinhos
Cristina disse…
dalloway

nem mais, clarinha e lúcida como sempre que não se fala de futebol :DDD

beijinhos
Parrot disse…
Cris,

Completamente de acordo contigo, resta saber se despenalização significa descriminalizar, e faz com que este desapareça.....e irei ver se não criamos outro problema social....não tenho sinais em contrário.
Bjs
PintoRibeiro disse…
Excelente, realmente. Bjinho.

Mensagens populares