variações sobre a mentalidade tuga...





do João Miguel Tavares no DN:

Ao fim de dois anos de corridas, Tiago Monteiro abandonou a Fórmula 1. Mas até ao último momento manteve a postura altiva e confiante de um piloto fora de série, que só não chegou ao Olimpo do automobilismo por uma série de infortúnios, azares e malapatas.(...)Tantos o garantiram que ele próprio passou a acreditar. No comunicado onde informa que esta época não vai correr na Fórmula 1, em altura alguma diz: "Meus caros, eu esforcei-me, mas não arranjei equipa." O que ele afirma é, e passo a citar (reparem nos verbos conjugados na terceira pessoa, como é próprio de génios e futebolistas): "Tiago Monteiro não vai aceitar nenhuma das propostas que lhe foram feitas por parte de equipas de Fórmula 1 para 2007", por não "reunirem as condições que merecia." Que é uma maneira de dizer: eu não me vou embora por não estar à altura de uma equipa; vou-me embora por não ter uma equipa à minha altura(...)Tal como Pedro Matos Chaves e Pedro Lamy, dois ex-génios da Fórmula 1, Tiago Monteiro era de estalo - mas o destino pregou-lhe maldosas partidas. Durante os dois anos que por lá andou, a crer nas notícias, nada do que lhe aconteceu foi alguma vez responsabilidade sua: foi dos travões, da embraiagem, da caixa, dos pneus, da direcção, do motor, do piso, da chuva, do sol, do colega de equipa, da conjugação dos astros, da Lua na terceira casa, do diabo a quatro. Dentro de si, bem dentro de si, Tiago Monteiro tinha tudo para ser um Michael Schumacher. Mas o azar... Ai, o azar...

Do José manuel Fonseca A.K.A Piotr Kropotkine, texto sobre "O Boato" publicado na "Psicologia Actual"

Todos já convivemos com os boatos mais ou menos sugestivos sobre a natureza e as estatísticas da sexualidade dos colegas de trabalho. Em geral, tratam-se apenas de projecções nos outros, de comportamentos que secretamente se desejariam ter... Há pessoas que vêm em todo o lado gente que subiu na “horizontal” e, fazem circular a sua versão miserável do sucesso alheio sempre atribuível à sorte ou à falta de vergonha. Enquanto, por oposição, o sucesso dos próprios se deve à excepcional perseverança e tenacidade que conduziu, claro está, a uma vida inteirinha de esmerado esforço sempre ético e ao sabor de todos os códigos deontológicos, mas, helas, sempre com um grau de reconhecimento largamente insuficiente, ou sempre marcado por aquele azar dos Távoras que nos acompanha, desde que nos conhecemos, e que nos cerceou o alcançar dos píncaros que amplamente merecemos...

Comentários

Unknown disse…
Bom dia Cris,

sobre a metalidade mesquinha tuga, nada a comentar ou a acrescentar, apenas que concordo na generalidade.

Quanto ao Tiago Monteiro, a questão é algo diferente! Hoje, e sempre foi assim, quem quiser entrar e competir na F1 tem de literalmente comprar um monolugar. Já que há aqueles que são pagos para correr, os pilotos das equipas de primeira linha, Ferrari, Renault, Mac Laren, e as outras, que para equilibrar o pesado orçamento anual, leiloam um 'volante' a quem pagar mais. Por norma estas equipas são de segunda linha e com carros pouco competitivos. O que se passa é que Portugal é um país demasiadamente pequeno, neste caso economicamente. Já que para ter um piloto na F1 tem de lhe passar para as mãos quantos milhões - neste caso foram empresas do estado - Galp e penso que tb a PT. Mesmo com os milhões de dólares que nestas duas épocas foram 'investidas' no Tiago, podes ter a certeza que eram uma gota de água no orçamento da Jordan, Midland e depois Skyper.
E mesmo assim, o Tiago já se pode considerar um priveligiado, porque o Pedro Matos Chaves e o Pedro Lamy não tiveram apoios de grandes empresas nacionais. O Pedro Lamy teve uma grande sorte, foi apadrinhado pelo Ayrton Senna, mas o azar do Lamy, todos sabemos qual foi... e nem o Domingos Piedade, na altura director desportivo da Mercedes e envolvido directamente no fornecimento de motores a uma das equipas salvou o Lamy. E não se pode dizer que o Pedro Lamy não tem talento, actualmente é um dos mais conceituados pilotos mundiais de resistência, entre outros atributos, tantos, que disputa vários campeonatos mundiais, seja turismo, resistência e alguns nacionais, Inglaterra e Itália, bem disputados e onde mesmo assim vence.
De volta ao Tiago, o seu talento é indiscutivel, já acompanhava a carreira dele antes de chegar à F1, e por onde passou ganhava tudo o que havia para ganhar. Por tudo isto, é normal querer competir na f1 e provar que tem talento. O problema dele é ser tuga. Ele pode até voltar a ter apoios financeiros que lhe permitam voltar, mas se forem apenas nacionais, nunca serão suficientes para comprar um carro que lhe dê garantias de brilhar e, para assim progredir na carreira, até que seja pago para correr. E as empresas nacionais possam apostar noutro talento que entretanto possa surgir. Não tenho grandes dúvidas, que se o Shumacker ou o Senna, ou qualquer outro, fossem tugas, nunca tinham corrido na F1, ou mesmo correndo, não passariam da cepa torta e nunca seriam campeões do mundo.
Não há dúvidas que há tugas com talento, mas conseguir entrar e sobreviver em mundos encharcados de tubarões é outra conversa. Os tugas ou se safam em desportos individuais e físicos, ou então, poucas hipóteses terão...
Há bons e exemplos, os mais mediáticos serãos o Figo e o Ronaldo. Do lado negativo temos por exemplo o Rui Madeira, arquitecto de Almada, que foi campeão do mundo de rallies em produção. No final desse ano, prometeram-se mundos e fundos para dar ao Rui um um carro de rallies WRC, numa das equipas de topo... viu-se, hoje em dia nem corre!
Outro, o Carlos Sousa, ganhou a taça do mundo FIA de todo o terreno, com uma estrutura nacional, no final desse ano a Mitsubishe Motors Portugal dizia que o Carlos iria integrar a equipa oficial para o Dakar desse ano. Todos sabemos, ou depreendemos qual foi a resposta dos japoneses... daí a rutura do Carlos com a MMP. Ao que se seguiram dois anos à deriva, a inventar projectos para conseguir correr o Dakar. Mesmo esta integração na equipa VW é apenas uma fachada, quem teve de abrir os cordões à bolsa foi a João Lagos Sport, que criou uma equipa para ele, registe-se o facto de a VW dar apoio ao Sousa, o que já é muito significativo. So quando o vir com um VW com as cores oficiais da equipa de fábrica é que acredito que o Sousa tem fortes hipóteses de vencer um DAkar.
Unknown disse…
ups... querias que escrevesse mais... mas acho que exagerei... sorry ;)
Cristina disse…
desi

caramba, obrigada por esta dissertação sobre automobilismo, já vi que é a tua praia..:))

agora, há coisas que me fazem espécie. estes condutores de que falas, dizes, são todos óptimos e ganhavam por onde passavam. as equipes/marcas viram-nos, portanto sabiam que eram excepcionais..não interessaram a ninguém como aposta? não achas isso esquisito? é que tanto "azar" já cheira muito a desculpa, de facto.

quando falas do Figo e do Cristiano, parecem-me exactamente um bom exemplo do contrário. excelentes jogadores, o Figo com estatuto de "melhor do mundo" o Cristiano para lá caminha, com investimentos de equipes estrangeiras que lhes reconheceram talento. e as origens de todos eles, todos conhecemos.
é nesse sentido que me apesar de tudo acho que quem tem tanto talento como dizes acaba por encontrar alguém que aposte, afinal, também lucra com isso.

talvez seja diferente o percurso a fazer, mas apesar de tudo, é estranho, não haverá aí alguma falta de humildade também?

bejinho
Anónimo disse…
Cris,

Gostei de ler o post e o que escreveu o desinformador. Mas não vim cá por essa razão. Vim só dizer que estou VIVO E MUITO BEM. Obrigado por tudo.

Bjos
MariaTuché disse…
Amiga fiz-te um desafio lá no Me.

Sorryyyyyyyyyy

beijossssssssssssssss
Cristina disse…
batuta

outra coisa não esperava :))vai dando notícias.

um beijinho, bom fim de semana e boa recuperação ;)
Cristina disse…
tuché

já lá vou ver :)

beijinho
Parrot disse…
Cris,

Em linhas muito gerais, concordo com a opinião do desinformador, e depois isso de "apostar" em talentos, no caso da F1, acontece, mas quando existe muitos € a suportar. Não concordo nada (o que não estranha) com o João Tavares, que no mínimo anda desatento, até porque já o ouvi (O Tiago) admitir, pelo menos duas vezes na passada época, que tinha errado....
Também não deixa de ser "espírito tuga" dizer que nós por cá somos uns tristes....lá fora é que são bons....
Nós, os "tugas", vivemos muito mal quando encontramos um outro "tuga" ambicioso....por isso somos "tugas". :))

Beijos...guapa
Anónimo disse…
As coisas que eu não sei. Obrigada desinformador.

Estas variações sobre a mentalidade tuga aqui apresentadas só vêm reforçar que a humildade, querer, vontade, muito trabalho e afinco são regras basilares para a conquista de um objectivo.
Não basta sermos bons naquilo que fazemos e partirmos do principio que o resto virá por acréscimo. Mentira!
Ser bom profissional implica esforço diário, comprometimento para connosco próprios e para com os outros, mesmo quando isso implica mudanças e decisões inesperadas.

O sucesso não deve toldar a nossa capacidade de equilibrio entre o querer e o retorno que tenho dos outros.
As desculpas ou fuga para a frente... não é sinónimo de comportamento construtivo.
A vida faz-se de partilhas e desafios.

A falta de humildade nos tugas também se sente na não aceitação do sucesso alheio porque acham que esse sucesso se deve a tudo, menos ao mérito próprio.

Esta persistência em viver a vida dos outros como se fosse a sua e a insistência nas comparações, é o caminho 'certo' para a pouca "elasticidade" mental.

Eis um tema que dá pano para mangas (ou casaco, sobretudo manta)
Unknown disse…
Cris,

sem querer alongar-me muito. Equipas de futebol a investir em jogadores é algo completamente diferente. Com os calendários competitivos apertados da UEFA e da FIFA, a caça ao talento é mundial, sobre isto há N exemplos e pouco interessa a idade ou a nacionalidade. O nosso glorioso também já entrou nesta onda, com a contratação de um chinês de 18 anos.

Mas em desportos motorizados, o jogo joga-se de maneira completamente diferente. Por exemplo, em relação ao Tiago, nos dois primeiros anos conseguiu segurar um volante porque a concorrência directa era fraquinha, em termos de talento, mas com grandes quantias de dinheiro por trás. No primeiro ano do Tiago, o companheiro de equipa era indiano. Por norma era quase 1 segundo por volta mais lento que o nosso Tiago, mas levava os bolsos forrados de 'rupias', especula-se que era pouco mais do dobro... e se o Tiago se esmifrou para juntar quase 10 milhões de euros, para ter um carro que ficava quase sempre em último, porque o chasse estava ultrapassado, os motores eram pouco potentes e a aerodinâmica tinha dois anos, o que significava entre seis a dez segundos mais lento por volta do que um Ferrari... por aqui façam contas...

Não tenhas dúvidas, que durante a pré-época, quando se fazem todos os jogos de bastidores, um patrão de uma equipa de F1 ou de WRC, se tiver que optar entre um tuga, e um inglês, francês, alemão, espanhol ou americano... mesmo que estes tenham um orçamento mais baixo... a escolha é óbvia...

Acredita que isto não é um problema de sorte ou azar... é a sina de ser tuga! Um país pequeno sem poder económico para fazer frente a esses países...

Bom resto de domingo C.
Cristina disse…
Parrot

não há nenhum mal em ser ambocioso, pelo contrário. a tónica do post vai no sentido de quando começamos a inventar desculpas para a nossa própria incapacidade...:))

facto de que encontramos exemplos quase todos os dias..

beijinhos
Cristina disse…
dalloway

deixei neste post estas duas vertentes: a desculpa pelo proprio insucesso e a descoberta no sucesso de caminhos obscuros e menos dignos.dois comportamentos amplamentes generalizados....

e dava pano pra muitas mangas, como dizes.

beijocas
Cristina disse…
desi
se tiver que optar entre um tuga, e um inglês, francês, alemão, espanhol ou americano...

não opta pelo melhor piloto? porquê?

(ignorancia mesmo..)

bjs
Unknown disse…
Não optar porque não é comercialmente rentável! Money talks. Se investirem num piloto de uma daquelas nacionalidades, depois irá haver um retorno comercial muito maior do que se optassem por um tuga. Imagina, sponsors e patrões embolsavam 10% em pub e afins se fosse um tuga o seu piloto, enquanto contratando um de outra nacionalidade, os contratos de pub seriam 100 vezes maiores. Basta pensar no que o Shumacher embolsou só em pub...
Se pensam que um tuga pode fazer facturar tanto como um alemão, ou qualquer outro, avisem! Porque quando os futebolistas ganham, Figo, Ronaldo ou afins, quem ganha e embolsa são os clubes e seus sponsors.
Já agora, o piloto tuga até pode ser melhor, diagmos exagerando, no contexto da F1, um segundo mais rápido, mas depois essa diferença de talento dos pilotos vai-se diluindo com o material, carro, pneus, electrónica, and so on... e por isso, é que um tuga luta para correr com um carro de fim de tabela, e um inglês e afins tem de oferta um carro que se coloca no meio do pelotão, e depois vai evoluindo ele e o carro, à medida que vai havendo cash flow... estamos a falar de orçamentos anuais de 100 milhoes de euros... sem pensar em Ferrari e MacLaren, porque essas têm orçamento praticamente ilimitado.
A equipa onde correu o Tiago nos últimos dois anos tinha um 'mísero' orçamento de 50 milhões... o Tiago entrou com um pouco mais de 10%... serviu para pagar a gasolina e os pneus... já não foi mau!

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