arrematando o assunto,





Uma chamada de atenção muito oportuna da Sofia para um texto publicado por Vital Moreira há um mês no Público.

Universidades dependentes
Por Vital MoreiraA gravidade das recentes perturbações na Universidade Independente vieram chamar novamente a atenção para a degradação institucional e académica de vários estabelecimentos de ensino superior privados. Seria lamentável (para não dizer inaceitável) que, mais uma vez, o Estado fizesse de conta que nada se passa, contribuindo, por omissão, para o agravamento da preocupante situação do sector.Com excepção da Universidade Católica, o ensino superior particular desenvolveu-se em Portugal desde os anos 80 do século passado de forma desregulada e sem controlo público, aproveitando o súbito alargamento da procura e a incapacidade do sistema público para lhe corresponder. Quando a lei veio proceder ao enquadramento desse subsector, já se tinham criado e consolidado situações que limitaram os requisitos e as exigências legais dessas instituições, quer em termos de predicados institucionais e financeiros das entidades instituidoras, quer em termos de organização e de autonomia dos estabelecimentos em relação àquelas. Como se não bastasse esse défice de regulamentação normativa, sucedeu-se uma generalizada falta de supervisão, que permitiu a criação de numerosas situações à margem da lei e de incumprimento impune dos requisitos estabelecidos.Foi assim que proliferaram estabelecimentos e extensões por esse país fora sem as mínimas condições materiais e pedagógicas; que se multiplicaram formações de lápis e papel em detrimento de formações tecnológicas e científicas; que entraram em funcionamento cursos sem autorização prévia; que se ultrapassaram frequentemente os números de vagas autorizados; que se criarem formações pós-graduadas – incluindo mestrados e doutoramentos – sem as condições exigíveis em qualquer país europeu. Tudo isto era evidente desde cedo e tudo isso ficou comprovado num inquérito e num relatório produzido por uma comissão de especialistas no final dos anos 90, que mostrou de forma concludente as deficiências de instalações, a obnubilação da distinção entre escolas politécnicas e universitárias, as ilegalidades em matéria de cursos não autorizados e de excesso de vagas, a falta de bibliotecas e de laboratórios, o incumprimento das exigências legais no que respeita ao número de professores doutorados e de docentes em dedicação exclusiva, a passividade e laxismo da tutela governamental. Infelizmente, o relatório nem sequer foi publicado, não tendo sido tiradas nenhumas consequências das suas conclusões. Ficou por fazer o saneamento do ensino superior privado, permitindo a separação do trigo e do joio. A imagem do sector foi-se degradando inapelavelmente, atingindo mesmo as diversas instituições que fugiam ao panorama geral e se esforçavam por dignificar o sector.A verdade é que o Estado sempre esteve mal colocado para exercer as funções de regulação, supervisão e de sancionamento que se impunham. Primeiro, a expansão desregrada do ensino superior particular era consequência da imprevidência e desresponsabilização estadual na ampliação do sistema público; segundo, o Estado não tinha muita legitimidade para supervisionar as instituições privadas quando mostrava quase a mesma incapacidade regulatória em relação às instituições públicas (por exemplo, proliferação de extensões e de cursos); terceiro, desde cedo se mostrou a capacidade de "lobby" de várias instituições privadas, por conivências políticas, partidárias e ideológicas, que capturaram e neutralizaram qualquer vontade política de regulação do sector. Não por acaso, uma breve observação do elenco dos responsáveis e docentes de várias universidades privadas revela uma estranha concentração de pessoal político (deputados, ex-governantes, dirigentes partidários, etc.), para além da curiosa presença de directores e de jornalistas de nomeada, mesmo em cursos sem nenhuma ligação à profissão. Além disso, a partir de certo momento, muitas câmaras municipais apareceram a patrocinar a criação e a proporcionar apoio material e financeiro a instituições de ensino superior privadas – sem qualquer oposição da tutela ou do Tribunal de Contas, mesmo se nenhuma lei confere aos municípios atribuições na área do ensino superior –, desenvolvimento que culminou com a "municipalização" da Universidade Atlântida, em Oeiras. Os lamentáveis episódios da Universidade Independente constituem uma nova ocasião para revisitar o estatuto legal e o sistema de regulação do ensino superior privado, designadamente quanto à idoneidade institucional e financeira das entidades instituidoras, quanto à transparência e "accountability" da sua gestão, quanto à sua sustentabilidade no quadro da contínua diminuição da procura, quanto à garantia de independência científica e pedagógica das escolas, quando aos requisitos relativos à qualificação dos professores e à existência de um corpo docente próprio, quanto às exigências de investigação, quando à seriedade da avaliação e da atribuição de graus académicos.O que não pode permanecer mais tempo é a tendência de deterioração do sector, que desqualifica indiferenciadamente as instituições, mesmo as que foram capazes de criar e manter padrões de exigência e de qualidade aceitáveis ou mesmo louváveis, e que ameaça os direitos e os interesses e expectativas legítimas do pessoal docente e, sobretudo, dos estudantes, que suportam essas instituições com elevadas propinas e que têm todo o direito de exigir do Estado – que reconheceu as instituições, os cursos e os graus – o accionamento dos poderes de regulação e de supervisão que lhe incumbem.
(Público, terça-feira 13 de Março de 2007)

Comentários

batuta disse…
Cris,

Vital Moreira?
Vou-me já embora. Adeus, até ao meu regresso:)

Bjos
Cristina disse…
batuta

Vital Moreira sim! tens algo contra cabelos brancos? :D
Anónimo disse…
Cris,

Não tens idade para ter memórias que eu, e muito boa gente, temos sobre esse senhor.
Como tenho cabelos brancos desde os 12 anos - é verdade! - é claro que não tenho nada contra.

Bjos
Cristina disse…
batuta do coração!

memórias,é melhor não puxar muito por elas....ou vais atirar a primeira pedra? :D
Anónimo disse…
Querida Cris,

Prontus, não se puxa pela memória e não se atira pedra. End of story!

Bjos
Anónimo disse…
batuta,

Se me permite, dou-lhe um conselho:

- leia a mensagem, isto é, o texto.

É o que está em causa.

abraço
Anónimo disse…
Vital Moreira é uma daquelas pessoas que fala, fala, fala, e diz pouco.
Leiam-se as entrelinhas...
E não foi este senhor que defendia com unhas e dentes o PCP e que na primeira oportunidade, deu a facada e voltou as costas?
E ná é este senhor consticionalista?
De tanto passado e presente, algo indefinido, eis a razão dos cabelos brancos.
Anónimo disse…
Tenho que reparar erros (gralhas?).
Penúltimo parágrafo: Rectificando, " E não é este senhor constitucionalista?"
Sorry
Cristina disse…
reporter

vou-lhe confessar uma coisa, tenho algum problema com a memória...eu explico: até as pessoas que fizeram erros-e creio que somos todos nós-em alguma altura dizem coisas acertadas. quanto ao Vital Moreira, tem-me parecido bastante lucido. ja em relação à campanha do referendo disse muito e bem!
e em relação a este texto, com o que é que não concorda?

;)beijos
José disse…
Cheguei tarde mas a tempo de ler um bom remate... o comentário /resposta precendente da Cristina.
O que mais me dana é quando descubro que me dei à estupidez de ceder a um preconceito...
Anónimo disse…
Não querendo aimentar a polémica, mas permitam-me o seguinte comentário:

Nós que já "cá" andamos há algum tempo, na Blogosfera, devemos saber distinguir entre "mensagem" e "mensageiro".

Parece-me que o que foi publicado para eventual comentário dos habituais frequentadores do ContraCapa, foi um artigo SOBRE o ensino superior privado, obviamente relacionado com o recente caso da Universidade Independente.

O que não invalida na liberdade de expressão que nos assiste a todos, de podermos manifestar, uma opinião sobre o autor do Artigo.

Mas não me parece que tenha sido essa a intenção objectiva da Bloguer, porque a ser o caso, escusado teria sido, colocar o citado Artigo.

Bastava apenas a Foto do Autor, o nome, e um qualquer comentário sobre a vida pessoal e profissional do citado Autor.

Sou suspeita ? Sou sim senhor.
Gosto bastante de ler o que o Prof. Vital Moreira escreve.

Tem Vital Moreira, contradições no seu percurso político ?
Tem sim senhor.

Quem as não tem ?
Muito poucos.

Bom Dia a Todos !
maloud disse…
Os textos do Vital Moreira são regra geral irrepreensíveis. Quanto a passados há quem os tenha mais vergonhosos.
Beijinho
Anónimo disse…
Cristina
Vital Moreira nunca ME disse nada. Nunca.
Este texto? Para ser coerente, nada me diz.
O tema é, sem dúvida, importante.
Mas... que hei-de fazer? E logo eu que nem sou fanático?
Quando não gosto é escusado.
E, confesso, sou levado por isso.
Talvez, neste caso, "traumatizado" pelos ziguezagues políticos da pessoa em questão.

Não me levem a mal. O que eu menos quero, aqui ou em qualquer lado, é fazer polémica.

Vem aí mais um fim de semana.
Passem bem.
Anónimo disse…
Posso, se me permitem, perguntar à "sofia" por onde andou Vital M este tempo todo?

Quanto a mim, de blogosfera já tenho muito tempo.

Visito este "Contra Capa" há pouco tempo. Por desconhecimento da sua existência. E tenho pena.

No polemics, please.
Anónimo disse…
Caro Amigo Repórter,

Pergunta por onde andou o Prof. Vital Moreira. Olhe, foi o que consegui descobrir.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vital_Moreira
um abraço
sofia


Prof. Vital Moreira

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Vital Moreira é professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC), onde lecciona Direito Constitucional e Direito Administrativo no Curso Geral e do Instituto Superior Bissaya Barreto (ISBB) da mesma cidade, onde lecciona Direito Constitucional.

É também Director Nacional e Professor do European Master's Degree in Human Rights and Democratization (Veneza), organizado por um consórcio de universidades europeias.

É ainda Director do "Centro de Direitos Humanos" do Jus Gentium Conimbrigae, Instituto de Investigação e Pós-Graduação da FDUC, e Coordenador e Professor do respectivo curso sobre Direitos Humanos.

Exerce os cargos de Presidente do Centro de Estudos de Direito Público e Regulação (CEDIPRE), Instituto de Investigação e Pós-Graduação da FDUC e de Director e Professor do respectivo curso de Pós-Graduação em Regulação Pública.

Possui licenciatura, mestrado e doutoramento outorgados pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC).

É o principal animador do blogue Causa Nossa, que mantém juntamente com Ana Gomes, Jorge Wemans, Luís Filipe Borges, Luís Nazaré, Luís Osório, Maria Manuel Leitão Marques e Vicente Jorge Silva.


Cargos anteriores:

Deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República.

Juiz do Tribunal Constitucional.

Membro do Conselho Nacional da Avaliação do Ensino Superior (CNAVES).

Membro da Comissão Europeia para a Democracia pelo Direito ("Comissão de Veneza"), do Conselho da Europa.

Membro do Conselho de Administração do European Inter-University Centre for Human Rights and Democracy (EIUC), Veneza.

Bibliografia:

Coluna semanal do jornal "Público" (Lisboa)
Coluna mensal do “Diário Económico” (Lisboa).
A Ordem Jurídica do Capitalismo (1973)
Autoridades Reguladoras Independentes" (2003) (em colaboração com Fernanda Maças)

Constituição da República Portuguesa anotada (1ª ed., 1978; 4ª edição, em preparação), em colaboração com J. J. Gomes Canotilho
Anónimo disse…
sso é um currículo brilhante.
Eu perguntei por onde tem andado Vital M no que directamente ao "caso" UNI versus primeiro ministro diz respeito.
Tome lá um sorriso e um beijinho.
Anónimo disse…
eheheheheh ... agora é que .... eu 'tou a perceber o que o Amigo Repórter pretende dizer.

pois ....:-)

tome então um beijinho meu !

Também ! :-))))))
cs disse…
Vital Moreira só pelo debate sobre a IVG mostra lucidez.

Mas mais que isso, a inteligência...e não se pode deitar fora a inteligência quando ela não abunda tanto assim, e as mais das vezes emigra.

Obrigada Sofia por deixar assim o curriculum deste homem senão estaria eu tentada a fazê-lo.

Quanto ao artigo, claro que ele poderia ser mais agressivo, e Vital Moreira sabe do que fala, porque trabalha nos dois sistemas, mas sumariamente ele chama atenção para o verdadeiro problema, tanto na privada como no público cheio de novos cursos, tantas vezes ocupados por vaidosos e arrogantes Doutoures, Mestres e Licenciados feitos numa rapidez assombrosa, alguma coisa vai mal...muito mal na Educação em Portugal e é para isso que o artigo chama a atenção.

Bom fds
Anónimo disse…
Foi com todo o gosto, CS.

um abraço
Bom Fim de Semana
Cristina disse…
Obrigada sofia

aqui está um um grande exemplo do motivo porque um dia lhe chamei "melhor blogger" ;)

beijinhos

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