cesarianas a mais...

O Público apresenta um artigo alarmante com resultados que, empiricamente, já se conheciam.
A percentagem de partos por cesariana nas unidades de saúde privadas foi de quase 66 por cento em 2005, mais do dobro da registada nas maternidades públicas (32 por cento) taxa esta só por si, já considerada excessiva pelos especialistas (...) Mas em alguns estabelecimentos foi mesmo superior a 90 por cento. Há o caso de uma unidade onde, de um total de 272 nascimentos, só 19 foram partos normais, lê-se no relatório preliminar a que o PÚBLICO teve acesso.
"A taxa é absolutamente exagerada até porque estes estabelecimentos não vêem grávidas com patologias", comenta Jorge Branco, presidente da Comissão de Saúde Materna e Neonatal, que recomendou o encerramento das maternidades públicas com uma casuística inferior a 1500 partos por ano. "Isto é uma loucura total", complementa Octávio Cunha, também membro desta comissão, lembrando que estes locais não recebem grávidas de risco, como acontece com os hospitais públicos(...)"Eles fazem cesarianas porque é mais rápido e não correm tantos riscos."
Outro dos problemas que ressaltam deste relatório é o baixo número de partos efectuados na maior parte destes centros. Dos 24 estabelecimentos analisados (um outro apenas começou a actividade em 2006), apenas dois fizeram mais de 1500 nascimentos, o mínimo exigido às maternidades públicas para se manterem abertas. E apenas seis efectuavam mais de um parto por dia. A média de partos é tão baixa que em três das unidades avaliadas pela ERS não ultrapassa, sequer, os dois nascimentos por mês.
Para Nuno Montenegro, director do serviço de obstetrícia do Hospital de S. João (Porto), a grande mensagem a retirar deste relatório é a de que há centros que "deveriam de imediato fechar as portas". Sublinhando que não está em causa a competência dos médicos, Montenegro nota que o problema passa por não existir "uma logística mínima para garantir as condições de segurança".
A entidade refere ainda que detectou "problemas graves não passíveis de resolução em tempo útil" em duas instituições, não especificadas(...)Mas detectou outros problemas, que se prendem com a falta de recursos humanos (12 dos centros não dispunham de profissionais habilitados durante as 24 horas), a ausência de manuais de procedimentos, de protocolos de actuação e de uma cadeia hierárquica clara em caso de emergência.
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Tenho que dizer que me espanta como é que esta realidade ainda não tinha sido equacionada por quem de direito.
De tudo o que se afirma, a única coisa que não é de todo correcto, será relacionar estes números de partos privados com competência médica e com "encerramento das maternidades públicas com uma casuística inferior a 1500 partos por ano" . Por uma razão facilmente explicável: a experiência dos médicos da privada, a que lhes confere competência, é feita nos hospitais públicos. Nenhum obstetra se forma na privada: é um complemento, ou seja, um obstetra de larga experiência (em maternidade pública) pode ser o responsável por um Único parto anual dessa instituição sem problemas..... Quanto a isto nada mais a acrescentar.
Agora, verdadeiramente preocupante, é o seguinte:
A cesariana tem indicações precisas que decorrem da impossibilidade clínica do parto ser feito por via baixa. Ora, nenhum obstetra com "amor à carteira profissional" leva para a privada uma doente de risco. Porquê? veremos adiante.
Como diz Octávio Cunha, "estes locais não recebem grávidas de risco, como acontece com os hospitais públicos". Logo, porque é que num universo de grávidas saudáveis, há 60% de cesarianas??
Duas causas, na minha opinião: A decisão médica muitas vezes por pressão da mulher(sabemos que muitas das mulheres que recorrem à privada preferem cesariana), muito facilitada pelo medo de não ter ao seu alcance os meios técnicos e humanos suplementares em caso de as coisas correrem mal ("detectou "problemas graves não passíveis de resolução em tempo útil" ). A cesariana neste aspecto é menos arriscada, porque é um procedimento muito mais previsível, muito mais rápido e portanto mais controlável. O trabalho de parto normal pode levar várias horas e implica grande vigilância, mas mesmo assim, mais facilmente numa maternidade pública o obstetra se recusará a avançar para cesariana se para tal não houver indicação.
Decorre facilmente do exposto podermos concluir sem exagerar, que na privada se praticam cesarianas sem indicação clínica formal. É sobre esta realidade que o Colégio de Ginecologia-Obstetrícia se deve debruçar. E se isto pode ser considerado ou não boa prática médica .
E sendo verdade, como se refere no relatório que se "detectou outros problemas, que se prendem com a falta de recursos humanos (12 dos centros não dispunham de profissionais habilitados durante as 24 horas), a ausência de manuais de procedimentos, de protocolos de actuação e de uma cadeia hierárquica clara em caso de emergência", ou seja, como diz Montenegro, não há "logística mínima para garantir as condições de segurança" estes devem continuar a funcionar???


Comentários
Meus amigos, o que se pretendia era uma melhor saúde, mas com as regras impostas não é por ai que se vai...não será esse o caminho. O caminho será economizar no farelo. E como chicos espertos que somos, vamos ter a saúde que dá lucro e centrada na ignorância do público
E esperem quando a primeira solução em muitos casos for directamente para a cirurgia sem passar por outros tratamentos que até poderiam ser mais dispendiosos a la long.
A cirurgia é bem paga e trata logo do assunto....e o cliente ainda pode fugir para a clinica ao lado...pimba.
E a saúde vai andar ao sabor das tabelas que o estado pagar.
Desde que não usem gases do anterior paciente já estou por tudo.
Desculpe qualquer coisa Cristina. Tiram-me do sério estes artigos como se descobrissem a pólvora.
Um beijinho por estes post que são muito interessantes
:)
aqui não tem nada a ver com cirurgias..
do que se trata exactamente é jogar pelo seguro. ninguém quer arriscar.
muito ajudado pelas dooentes da privada, que na maioria das vezes é malta que não está para estar ali horas a sofrer dores pa parir normalmente. pagam e querem uma cesariana que demora 15 minutos.
junta-se a fome com a vontade de comer...
Ok ...dou este caso de barato...eu tentei generalizar....um mau dia este meu...sorry
Bom Fim de Semana
:)
Acho estes números preocupantes. Já tinha lido um artigo num quotidiano, há 2 ou três anos que já abordava a questão.
Pela europa, e em particular em França, em que a organização e comparticipação dos privados não é exactamente a mesma que por aqui, houve um aumento enorme de cesarianas, já desde há duas décadas, por questões de segurança, claro, mas, sobretudo, por razão de gestão de agendas das clínicas, dos médicos e das parturientes, faziam-se meninos por encomenda e com data marcada, para não caír em períodos de férias... portanto por conveniências sem se pensar no que será realmente melhor para os crianços, mas, nunca chegando a estes excessos aí apontados! Quero crer que os privados possam fazê-lo também para sacarem mais cobres ao estado. Enfin, toujour la même chose!!!......
bom fim de semana
bjs
Qual a soma total dispendida em ambos os casos?
O primeiro filho de um casal é sempre um stress acrescido. Tudo são duvidas. Optámos pelo que nos pareceu o mais seguro. Como correu tudo bem, em termos de apoio e atendimento, os outros seguiram o mesmo percurso.
Tudo partos normais que nisso a mãe deles é uma valente.
Quanto à saúde em si, eu que estou de algum modo ligado a ela - à medicina dentária - há quase 20 anos só digo uma coisa: coitado de quem adoece.
E parto do principio que nas outras especialidades se passa o mesmo que na medicina dentária. E coitado de quem precisa!
Mais uma vez parabens por mais um post fantástico.
pendulo
o exagero que se tem vindo a verificar nos últimos anos, tem rigorosamente a ver com atitude defensiva por parte dos médicos e por pressão de muitas muçheres.
e isto porque é uma área tão sensível que já muito poucos arriscam na privada. não sei preços, posso dizer que uma cesariana tem mais 3 ou 4 dias de internamento, mas não é por aí. isso asseguro-vos, que ja ouvi vários obstetras falar do assunto. e vejam a repercussão que tem por exemplo a morte de um recem nascido para a carreira de um obstetra e as implicações de um processo judicial nessa área. ainda agravado pelo facto de na privada todas as decisões e tudo o que correr mal ser da sua exclusiva responsabilidade, ou seja, não tem uma equipe para o apoiar como numa maternidade: isso conta imenso e vos garanto que ninguém, por mais uns euros arrisca. a prova disso é que uma grande parte deles segue a gravida na privada mas na hora do parto manda-a ir ter com ele à maternidade, penso que conhecem muitos casos desses. pela precaução, mais nada. aqui não há grandes contas a fazer, o preço é demasiado alto, tanto em termos de processos como de consciencia, que ainda existe, felizmente, apesar do dinheiro que se possa ganhar.a morte de um recem nascido é uma mácula demasiado grande.
e os que o fazem na privada preferem optar pela cesariana porque se sentem mais seguros, além das mulheres preferirem...portanto, é a conjugação perfeita.
outra prova de que cada vez se arrisca menos é que na área de Ginecologia-obstetricia cada vez ha mais ginecologistas, ou seja, muitos deles não optam pela carreira como obstetras porque dá muito mais problemas...
só para se ter uma ideia, não conheço nenhuma médica que tenha preferido ter uma criança na privada, apesar de os colegas em principio nem lhe levarem nada...já disse tudo.
mas também decorre do post..
um beijo
Que garantias tinham no privado essas mulheres? Pediatria 24 horas e UCI de Neonatologia no mesmo edifício? Epidural? Todas as Maternidades Públicas de Lisboa fazem epidurais de rotina! Quem as informou do Serviço que receberiam no Privado e no Público?
A mulher não tem que ter o direito de escolher Cesariana se assim o quiser, tem é o direito de escolher o melhor local para parir sem ser enganada por publicidade enganosa!
E agora pensemos no seguinte: em outros países,com sistemas de saúde avançados o suficiente para haver estatísticas, o número de cesarianas em regime privado não chega aos números de Portugal... Porquê?
Porque noutros países a regulamentação funciona melhor e o acto médico não fica à mercê da opinião do doente nem do oportunismo do médico.
não,teoricamente não deve. volto a dizer que a cesariana é uma decisão clínica, não deve ser uma opção da parturiente. o parto natural deve prevalecer sobre o cirurgico, por razões óvias, é o natural. no entanto, pode ser mais demorado e doloroso. quando corre mal, é muito mais perigoso, a cesariana tem poucas probabilidades de correr mal, embora seja antinatura. daí os medicos cederem, na base de não se sentirem seguros na privada.
cumps