na canela dos nossos, dói sempre mais...

Pediu-me o Helder, que desse uma opinião sobre o tema do seu último post, que começa assim...
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Uma notícia no Público, deste fim-de-semana, volta a procurar chamar a atenção para um assunto que, em Portugal, ainda vai tendo pouca expressão/divulgação, mas que merecia maior e melhor atenção não só dos medias mas, sobretudo, da sociedade portuguesa: o bullying.A notícia do Público, de sábado, aqui e aqui, relata o caso de uma criança que foi vítima de cancro e agora é vítima de agressões por parte dos colegas da escola. «"Chamam-lhe "surdo", por ter perdido parte da audição com os tratamentos. Chamam-lhe "porco", por não usar o balneário. Um dia, um dos rapazes apanhou-o no corredor e "obrigou" outro a puxar-lhe as calças, enquanto lhe chamava "aquilo que é o contrário de gostar de mulheres". Já lhe aconteceu encontrar a mochila "cheia de ranho"»(...)
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Uma notícia no Público, deste fim-de-semana, volta a procurar chamar a atenção para um assunto que, em Portugal, ainda vai tendo pouca expressão/divulgação, mas que merecia maior e melhor atenção não só dos medias mas, sobretudo, da sociedade portuguesa: o bullying.A notícia do Público, de sábado, aqui e aqui, relata o caso de uma criança que foi vítima de cancro e agora é vítima de agressões por parte dos colegas da escola. «"Chamam-lhe "surdo", por ter perdido parte da audição com os tratamentos. Chamam-lhe "porco", por não usar o balneário. Um dia, um dos rapazes apanhou-o no corredor e "obrigou" outro a puxar-lhe as calças, enquanto lhe chamava "aquilo que é o contrário de gostar de mulheres". Já lhe aconteceu encontrar a mochila "cheia de ranho"»(...)
Nas escolas, o bullying é sobretudo exercido pelos alunos mais velhos ou fisicamente mais fortes. Os alvos são quase sempre miúdos franzinos, tímidos, crianças possuídoras de uma qualquer característica que a torne, aos olhos dos outros, diferente. Como o uso de óculos, um sinal no rosto ou o simples facto de ser o melhor aluno da turma. A agressão, nestes casos, tanto pode ser psicológica como física. Por norma, a vítima vê o seu agressor ou agressores, tirarem-lhe a pasta ou os livros durante as aulas, tirar-lhe os óculos, rotulá-lo com uma alcunha que rapidamente é espalhada por todos, chegando, muitas vezes, a criança a ser mais conhecida mais pela sua alcunha do que pelo próprio nome. Obviamente, esta alcunha, para se tornar "incómoda", versará sempre sobre uma característica que a vítima não quer que seja destacada. Mas o bullying pode também atingir a agressão física bastando para isso, muitas vezes, uma reacção da vítima a uma qualquer provocação dos seus agressores....
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Há um ano, deixei aqui excertos de um artigo interessante do site psiweb que começava assim:
Um dos grandes equívocos de nossa sociedade está em acreditar que basta ser criança para se ser bonzinho. Costumava causar impacto afirmar, sendo politicamente incorreto, que as crianças são naturalmente más. São elas que agridem os menores, pisam em formiguinhas, pegam fogo ao rabo do gato, são egoístas ao extremo, querem tudo para elas próprias, gozam com os mais fracos e participam alegremente no fenómeno conhecido por Bullying (forma de agressões intencionais repetidas, que causam angústia ou humilhação a outro, todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivações evidentes, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder). De fato, ofender, gozar, sacanear, humilhar, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir, bater, ferir, roubar, não é ser bonzinho....
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A agressividade é, infelizmente, um tema sempre actual. Mas quando se trata de violência infantil/juvenil que toca a crueldade, choca. A família e a escola influem através do vínculo, do contexto das interacções entre os seus membros, da eventual psicopatologia e/ou desajuste dos pais e do modelo educacional doméstico e escolar. A família, o isolamento que proporcionam as novas tecnologias, a escola, a situação sócio-económica podem ser os elementos ambientais relacionados à conduta agressiva. Mas, embora esses três factores (individuais, familiares e ambientais) sejam inegavelmente influentes, eles não atingem todas as pessoas por igual e nem submetem todos à mesma situação de agressividade. A conduta agressiva tem provavelmente uma origem e uma evolução multifactorial.
A Vítima é habitualmente uma criança que não dispõe de habilidades físicas e emocionais para reagir, tem um forte sentimento de insegurança e um retraimento social que muitas vezes a impede de solicitar ajuda. Normalmente é uma criança retraída e com alguma espécie de dificuldade ou fragilidade física ou psicológica e incapacidade livre ou imposta de se adequar ao grupo. No ambiente familiar, apresenta normalmente medo ou receio de ir para escola, mas, não obstante, não procura ajuda dos familiares professores ou funcionários da escola por medo de represálias. O que nos casos mais graves resulta mesmo em séria depressão, distúrbios psicossomáticos graves evitando voltar à escola. A fobia escolar geralmente tem como causa algum tipo dessa violência.
Os agressores no Bullying são, ou tornam-se, normalmente crianças antipáticas, arrogantes e desagradáveis. Alguns trabalhos sugerem crianças e famílias pouco estruturadas, com pobre relacionamento afectivo entre os seus membros, onde o modelo para solucionar problemas recomenda o uso de comportamento agressivo ou explosivo. Mas o contrário, também existe: a ausência. O sentimento de abandono, a inevitável sensação de desvalorização por parte da família, que acaba por dar toda a liberdade à criança para encontrar a sua própria forma de valorização sendo o mais forte, o que é temido, o herói da escola pela negativa, mas ainda assim um herói, quantas vezes admirado, invejado e estimulado pelos companheiros. Mas no fundo, é um caminho tristemente solitário.
Na verdade são crianças que é fácil detestar, muitas vezes odiar e finalmente excluir. A questão, sempre difícil de responder é, se é solução punir. Pode ser a curto prazo eficaz e eventualmente necessário: é preciso cortar a corrente; mas, acrescentará alguma coisa à estruturação desta personalidade?
Claro que, como mãe, a primeira reacção perante uma situação deste tipo, será de revolta, de desejo de vingança e perguntas do tipo se os colegas se tornaram cruéis, devemos aguardar que cometam algum crime para punir? É humano, acho. Estranho seria sermos complacentes com quem nos agride os filhos.
Mas, quem tem responsabilidades formativas, tem a obrigação de ver mais além da reação emotiva de um pai ou de uma mãe, de estar atento e de prevenir.
É possível incluir estas crianças, dirigir esta agressividade para actividades em que receberam o apoio que não obtiveram na família: essa seria a verdadeira escola. Onde sintam que podem ser bons pela positiva, que têm acesso a mostrar o seu valor.
Uma criança que é elogiada numa actividade, a quem se faz sentir que faz uma coisa melhor que os outros, geralmente empenha-se nela, fica orgulhosa e aceita o caminho. Mas é preciso "apanhá-la" a tempo, ter meios, ter disponibilidade.
E isso, na escola como na família, muitas vezes, demasiadas vezes, é bom de dizer.


Comentários
BTW, in reference to an earlier post, if you sit around your house dressed like that, you're going to catch a cold ;)
Have a great week. Get some sleep.
LY
Desculpe o abuso, Cristina, é um tem que entre portas já falei dele e me preocupa
Bom Post é o que desejo
um bjinho
cs
nos corredores e salas de aulas assiste-se a coisas inarráveis...
sim, a escola deve ser, no sentido que lhe deu, escola, embora muitas vezes se exija à escola aquilo que está muito para além das suas efectivas e reais possibilidades, por ter causas exógenas a ela. como é o caso, aliás. contudo, com isto não quero desresponsabilizar a escola, como instituição, nem os seus agentes, nos quais me integro, nas acções de prevenção do bullying bem como do seu desvio para práticas socialmente aceites e mais estruturantes - e gratificantes tb - da personalidade dos agressores.
todavia, insisto, o que me angustia é como reconhecer e lidar com as vítimas. porque essas é que sofrem.
Beijinhu
P.s.
Vem lá ao meu cantinho, tenho uma frase para decifrares
:)
Depois existem os "abusadores", claro. Sabemos que a mera respressão não resolve nada, mas se poupar o "sacrifício educativo" de algumas das vítimas talvez seja uma hipótese a equacionar, tendo presente um quadro mais vasto que depois de punir indique oportunidades de reavaliação. Mas será a escola capaz de enfrentar tais desafios com os meios de que dispõe?
De facto é um problema e bastante mais profundo, onde existem situações verdadeiramente dramáticas....e ainda temos outro fenómeno que tb anda a reboque.....que é a violência como forma de integração no grupo...
A escola tem um papel fundamental, mas a família é a base. Quando esta não está alicerçada em alguns valores garante de equilíbrio...entramos numa muito complicada para estas crianças, onde vemos o estado completamente divorciado destas realidades, e mais grave, não promove a integração destes jovens....nem na própria escola....
Beijo, e boa semana
pois, esse é o problema..
a frase "Aquilo que a escola recusa a prisão aceita" é fantastica. se aplicada aos agressores ainda mais realista.
que no fundo, têm todas as condições para abandonar.
tem que haver castigo, mas não pode ser gratuito, não sei se me entende..
o facto é que não estamos preparados para lidar com a situação.
beijinho
o que eu vejo é que muitos pais não têm ideia dos filhos que têm....
só dão por isso quando a situação é grave demais.
tinha uns amigos, com um filho único, assim. os colegas contavam horrores do comportamento do miudo, os outros pais idem. eu via como ele era sozinho. e os pais achavam que tinham um anjo em casa....:(
e os pais eram 2 tipos impecaveis, bem educados, simpaticos. com uma vida razoavel.
o mais incrivel é que quando mudaram para a provincia, onde se tem mais tempo pra tudo, onde o acompanhavam mais, nomeadamente nas actividades, onde os professores o conheciam dentro e fora da escola,apostaram mais nele, o puto mudou completamente...
é isto..
beijinhos
claro que são!! mas uma coisa é a crueldade que todos eles têm naturalmente, de gozarem uns com os outros por pequenos nadas que depois acabam por ultrapassar, outra é trucidarem um desgraçado porque é mais fraco fisica ou psicologicamente....e violentamente. os miudos não estão habituados a lidar com a doença. ve-se isso muito bem nos irmãos de deficientes, têm uma atitude completamente diferente de protecção. falta-lhes tambem mais contacto com estas crianças.e mais educação nesse sentido.
é outro nivel..
ha aqui uma coisa importante neste caso:
a falta de contacto com crianças doentes.
eu ja lidei com elas em escola propria e em escola normal.
conheço bem um infantario que recebe deficientes (de que falei nos comentarios do post do Seara..)
estes miudos, os normais, habituam-se a lidar com eles e mais engraçado, a protegê-los. é extraordinario, porque são pequenos e ja percebem que está ali alguem que precisa de ajuda ate para as brincadeiras. e os miudos têm tanto de crueis como às vezes de generosos(isso vê-se bem nos irmãos de doentes). é este trabalho que não se faz em casa, porque falar não basta, se é que se fala..).
eu tive uma filha com uma artrite juvenil que estave lá, e os proprios colegas ajudavam-na. ela gostava muito da escola... as educadoras, de quem fiquei grande amiga, pediam-me para ir com ela à consulta para melhor entenderem até onde podiam puxar por ela, o que lhe podiam perdoar e o que deviam exigir. pediam livros sobre a doença....ensinavam os ouros miudos. eu vi-as trabalhar e só pensava que aquilo era um paraíso dentro da ignorancia com que são tratados os miudos diferentes na maioria das escolas.
mas estamos ja noutra realidade. de qualquer modo o artigo era sobre isso, uma criança doente.
esta ignorancia e a falta de sensibilidade com que a escola lida com o assunto e os abandona, que parece ser o caso, é devastador. para quem é agredido e para os agressoras que seguramente vão ser muito piores pessoas.
aqui, a educação conta, mas o papel formativo da escola é fundamental..
um beijo
é crime, mas como podemos considerar criminoso um puto de 7, 8, 9 anos? e a culpa dos adultos, onde fica?
pois...
com certeza. é como eu disse atrás...a educação é fundamental, mas ha formação que a escola e a sociedade, só eles podem dar.
não falando en doentes, mas em crianças violentas indiscriminadamente, esses miudos têm que ser agarrados, a escola tem que arranjar maneira de canalizar essa energia para algo de positivo. ensinar-lhes que se podem destacar de outro modo...
agora, se me perguntares como eu reagiria se visse maltratar a minha filha, se calhar apertava-lhe o pescoço. la está...é daquelas situações em que não respondemos bem por nós...
mas sei que tem que haver outro caminho.
beijos
please, try to translate my other comments....
thank you
big hug
cris
Devo andar com efeitos colaterais da ementa anti-colesterol e com um ataque fortíssimo de NetCabisse. (para esta última maleita – a da NetCabo - há algum conselho no Marquesa?)
Não podia regressar sem cumprimentar os amigos que, pelo que vejo, continuam em grande forma.
que bom, voltou! vou-lhe contar um segredo: a casinha sem si não é a mesma coisa....digamos... que fica menos colorida;)
no marquesa não há, mas todos os dias me batem à porta com novas terapêuticas, à sua não?? :))
um beijo, bom regresso.
Embora o Contra Capa esteja nos meus favoritos nem sempre cá venho, talvez por não gostar de ler textos grandes. No entanto gostaria de te dar os parabens pelo esforço que tens em responder a todos os comentarios.
Continua!
a verdade é q nao ha solucoes simples, enquanto nao responsabilizarmos os pais pela sua parte na educacao dos filhos. um bully (assim como outros tipos de problemas) tem pais q o deixam ser. podem nao ter visto, podem nao ter conseguido evitar, podem ter 1000 desculpas, mas continuam a ser culpados.
no minimo dos minimos sao culpados por tudo aquilo q os cria. tao culpados como qq outro, sim, mas culpados na mesma...
Bom, olha, grande texto, grande ou pequeno e a verdade é que trata de um assunto que duvido que alguém em seu juízo perfeito consegue conhecer a sua atitude a não ser quando e se confrontado com ela!
Daí que registo e sublino:
1 - Uma criança que é elogiada numa actividade, a quem se faz sentir que faz uma coisa melhor que os outros, geralmente empenha-se nela, fica orgulhosa e aceita o caminho. Mas é preciso "apanhá-la" a tempo, ter meios, ter disponibilidade.
E isso, na escola como na família, muitas vezes, demasiadas vezes, é bom de dizer.
2 - Aquilo que a escola recusa a prisão aceita
De resto está tudo dito: se a criança nos fosse próxima levava na focinheira, mas como não é temos tempo para arranjar uma qualquer muleta psicológica que justifique as agressões!
Bjinho
O tema do Projecto Curricular da minha DT,neste ano que está praticamente no fim,é, precisamente, " O Bullyng".
E um dos seus objectivos é formar, entre os alunos da mesma, mediadores de conflitos para depois poderem actuar na escola. Porque o Bullying ( em português poderiamos traduzir por provocação) acontece , principalmente quando os adultos não estão presentes. Logo, na minha opinião temos, acima de tudo, que formar os alunos, no sentido de serem eles a combater as situações de bullying. E, a meu ver um bully (provocador/agressor) deve ser sempre, mas sempre, punido.(podemos discutir a forma de punição e até mesmo o termo)
Mas eu sou pelo: "antes prevenir do que remediar". E como sei de antemão que o bullying não é uma simples provocação e que quem a sofre, fica com mazelas , muitas vezes para o resto da vida...por mais compreensão que eu tenha pelo contexto do agressor(o que o levou a ser , etc ),temos que nos deixar de permissividades e actuar logo. Assim ainda poderemos recuperar o agressor , mas acima de tudo estamos a defender a vítima (que é empre o mais fraco e indefeeso).
Beijinhos
Bolacha
E a Cristina tem o dom de nos ofertar, na esmagadora maioria, grandes, mesmo muito grandes textos.
Gosto de passar por aqui. Não para dizer olá. Muito menos para abanar com a cabeça.
Gosto do que leio. Estar de acordo ou não, é outra coisa.
Por isso e para isso, existe a possibilidade de comentar.
Obrigado Cristina.
E a todos os grandes observadores/comentadores que por aqui passam, sem mácula.
é, eu sei que textos grandes são chatos...tá nos "regulamentos"..
mas ha assuntos que não se tratam em meia dúzia de linhas..
obrigada pelas visitas:)
claro que os pais têm sempre alguma cota de culpa. mas caramba, se a escola não tiver um papel activo, pra que é que serve... para afastar? castigar? só?
um beijo
uma muleta para justificar e ja agora, ajudar a resolver.
um beijo
"que formar os alunos, no sentido de serem eles a combater as situações de bullying." precisamente! penso que o exemplo que dei do infantário é bem um exemplo disso.
quanto à punição, claro, uma das coisas que temos que aprender é que as acções têm consequências.
o problema é que não podemos contar só com as consequencias negativas para formar personalidades...
tem que se dar condições a atitudes cuja consequencia seja positiva. aí é que está o grande desafio. o que me parece é que nem se tenta, obviamente é mais fácil punir!
(na escola como em casa...)
beijinhos
beijinhos
Beijinhos
Bolacha
é um trabalho fantastico esse, na minha opinião...emocionante mesmo :))
beijinho
Grata e um abraço. Márcia.