o direito à vida e à dignidade na morte



O tema é espinhoso, árido, como todos os temas ligados à vida humana, ou melhor, ao direito de viver ou de morrer e continua por isso a ser alvo de acirradas discussões na sociedade.

Veio hoje a propósito da recente notícia sobre um inquérito no qual uma parte dos oncologistas seria a favor da eutanásia. De que é que estamos a falar?

A palavra EUTANÁSIA é composta de duas palavras gregas ― "eu" e "thanatos" ― e significa, literalmente, "uma boa morte" ou suave, pacífica, sem sofrimento, por oposição à DISTANÁSIA, ou "má morte", morte dolorosa e/ou lenta, usando todos os meios para a prolongar, proporcionados ou não, ainda que o fim seja breve e inevitável.
Penso que a aparente repulsa que o termo provoca se deve ao facto de se entender a eutanásia como uma forma activa de provocar a morte de alguém quando a sua situação clínica se torna irreversível, dramática ou mesmo um estorvo. Não é assim. É preciso distinguir as formas de eutanásia: Activa, passiva, voluntária, involuntária, o contexto, a atitude, as motivações. Não é, portanto uma discussão fácil nem caberia num só post. Ficarei, então, pelas que acabam por fazer parte da prática clínica: a eutanásia passiva, admitida como uma suspensão de medidas de suporte de vida, e a eutanásia activa, que como é sabido, é aquela em que o médico intervém activamente podendo com isso acelerar a morte do doente terminal.
Da minha experiência de 18 anos de trabalho, creio poder afirmar que, a maioria dos médicos concorda em que há alturas em que o tratamento de suporte à vida deve ser retirado e se deve permitir que um doente morra em paz, sem sofrimento e com dignidade. Este ponto de vista é partilhado mesmo por aqueles que vêem o termo precipitado da vida sempre como errado, ou seja os que condenam a eutanásia activa. Quer isto dizer que, em determinada fase terminal de doença, começa a ser (ou já era) consensual que o doente não deve ser submetido a medidas intempestivas de suporte de vida quando estas não representem qualquer acréscimo em termos de qualidade e de esperança de vida e mais ainda, quando se prevê que a partir de determinado momento o aproximar do fim seja algo de dificilmente tolerável para o próprio e para quem o acompanha. Nestas circunstâncias, quereríamos para os nossos, esforços "heróicos" para acrescentar mais umas semanas, dias, ou horas à vida em sofrimento sabendo da inevitabilidade do desfecho? Beneficiaria ele, alguém, com isso?
Repare-se que não estamos a falar de privar o doente de tratamentos efectivos/eficazes ou de cuidados ou de qualquer outra forma de resolução de intercorrências enxertadas na doença de base, acelerando assim a morte. Nem da privação de cuidados paliativos, como se faz crer. Estamos a falar exactamente do contrário, de cuidados paliativos como forma civilizada de entender e atender aos doentes terminais, por oposição à obstinação terapêutica, na sua vertente física e psíquica. Cuidados paliativos definem-se como uma resposta activa aos problemas decorrentes da doença prolongada, incurável e progressiva, na tentativa de prevenir o sofrimento que ela gera e de proporcionar a máxima qualidade de vida possível a estes doentes e suas famílias. Nada disto entra, em minha opinião, em contradição com a suspensão de medidas intempestivas e o deixar que a doença siga o seu curso normal, quando há a certeza de morte iminente e de que o tratamento é ineficaz, mantendo no entanto toda a terapêutica que possa aliviar o sofrimento físico ou psicológico e introduzindo aqui outro termo: ORTONÁSIA: a adopção de procedimentos médicos correctos frente a um doente que está a morrer, o que cabe por inteiro dentro das práticas médicas reconhecidas como éticas e da ideia de que o doente tem o direito de morrer com dignidade. Esta atitude deve ser cercada das cautelas óbvias: 1-que o sofrimento seja irremediável e dificilmente suportável, 2-que a família esteja informada de 1 e da inevitabilidade da morte, 3-que a atitude seja consensual entre os vários profissionais de saúde que acompanham o doente. Reunidas estas condições, não me lembro, até hoje*, que em consciência alguém tenha discordado.
Mais polémica poderá ser a atitude de introdução de medidas terapêuticas que aliviando o sofrimento podem precipitar a morte, o que pode decorrer dos tais procedimentos médicos usados para aliviar o sofrimento, como por exemplo o mais conhecido: o uso de morfina ou de sedativos. Aqui, basta imaginar um familiar nosso com uma doença terminal extremamente dolorosa cuja dor só seja controlável com opióides em altas doses; ou situações de extrema ansiedade e descontrolo emocional para o doente. Mesmo sabendo que lhe estamos eventualmente a encurtar-e quando digo encurtar serão dias, horas- a vida, alguém terá coragem de o não fazer? E no entanto, pode caber na designação de eutanásia activa. Mas será que esta é sempre uma atitude monstruosa e eticamente condenável?
Isto só para dizer que não estamos, portanto, a falar de atitudes assassinas nem de exterminação de doentes com interesses dúbios. Com as devidas cautelas e senso, estamos tão só a falar de dignidade humana como algo intrínseco ao homem -não como um mero instrumento de demonstração dos avanços da técnica- e que lhe corresponde precisamente pela sua condição de pessoa desde o primeiro minuto de vida até ao último suspiro.


*excepto nos casos de crianças em que muitas vezes se perde a noção de até onde é razoável ir, no caso das famílias.

Comentários

Bem, também tenho uma ideia.
Este senhor acaba de chegar á FNAC em português.
Acho que é a altura de começares a preparar essa grande biografia.
Afinal a reforma está só a trinta anos de distãncia!
Anónimo disse…
no futebol, joe?...
só há um. o mourinho e mais nenhum!
bj
Cristina disse…
antónio

lol, e mesmo esse não é todos os dias :)))

beijinhos, dá-lhe um abraço por mim, se puderes.
Anónimo disse…
A sua explicação destes palavrões e conceitos está excelente.

O mais complicado é as pessoas no geral pegarem nas terminologias, conceitos, palavrões...e tentarem reajustá-los à realidade que os rodeia (com ou sem doença terminal).

Este é um tema vasto e dificilmente saberei discuti-lo por meias palavras até porque não tenho o dom da escrita, mas talvez tenha o da palavra :)

Existem tantos exemplos com os quais podemos aprender a reflectir um pouco mais sobre esta realidade.
O filme "Mar Adentro", ou um documentário feito a uma associação de seu nome EXIT, associação essa que existe há mais de 20 anos na Suiça. Nesse documentário colocam uma questão de ordem intima: "escolher a forma como se quer morrer não será a última manifestação de liberdade que lhes é concedida?"
O documentário chama-se "Exit - The Rigth to Die" (2005/06 ?).
Já deve ter passado na televisão portuguesa. Isto só para citar dois.

Exit A.D.M.D. (Association pour le Droit de Mourir dans la Dignité). Isto para alguém que esteja interessado em saber como funciona.

Muito haveria a dizer Cristina.
Para além da explicação dos palavrões, o seu post está muito bom e acho importante que o tenha escrito.
Nelson Reprezas disse…
Gostei muto de ler, Cristina. Sobretudo porque percebo, aqui e ali na opinião pública, uma certa tendência para se repartir o conceito de eutanásia entre o "deixar morrer" e o "induzir a morte". Há que não misturar as coisas, independentemente de cada uma delas poder eventualmente ser justificada.
Obrigado pela achega.
sem-se-ver disse…
nunca tive dúvidas. eutanásia, claro. passiva, activa, assim assim.

nem percebo a polémica (maneira de dizer: percebo-a, mas repugna-me).
Anónimo disse…
vivam, assistam a um estado terminal e...

acima de tudo é o que dizes " há alturas em que o tratamento de suporte à vida deve ser retirado e se deve permitir que um doente morra em paz, sem sofrimento e com dignidade"...
mais uma vez tiro o chapeu a estes teus posts!

um beijo maria cristina!
PA disse…
Muito Obrigada, Cristina.

A área dos cuidados paliativos ainda não está suficientemente bem organizada e equipada, para as reais necessidades, cá em Portugal, pois não ?

Um aspecto muito importante na área dos doentes oncológicos, como é o caso do meu pai.

beijinhos
Kaos disse…
Este blog está nomeado para as 7 Maravilhas da Blogoesfera!
Mais informações vai a
http://notasdokaos.blogspot.com/2007/06/as-7-maravilhas-da-blogosfera.html#links
Jesus da Terra disse…
Boa tarde, regressei ao vosso convívio e continuarei a visitar-vos.
batuta disse…
Cris,

Ainda ontem ouvi na rádio um "forum" sobre este tema. Provavelmente também ouviste. O teu post é muito bom, mas ainda falta aí uma "coisinha".

A propósito dessa coisinha só gostaria de fazer um reparo ao título do post.

A morte, como ÚNICO MOMENTO ABSOLUTO DA VIDA, é sempre digna.
Sugeriria, assim, que o título fosse:
"O direito à vida e à dignidade NA morte".
fAZ TODA A DIFERENÇA.

Bjos
Cristina disse…
batuta

tens toda a razão!! por acaso, já ontem tinha reparado nisso mas acabei por não mudar...
obrigada por lembrares.

beijo
Anónimo disse…
Viver com dignidade! Acabando a dignidade, deve ser concedido o direito ao próprio de continuar a vegetar na indignidade ou não. Nem familias, nem médicos deveriam ser para aqui chamados, estes últimos só deveriam sem chamados para auxiliar a por fim a essa indignidade.
Seria assim numa sociedade perfeita.

PS: A dignidade humana só foi reconhecida recentemente, tem menos de 200 anos.

Um abraço Cristina.

Fernando
Cristina disse…
dalloway

obrigada. é um tema sem fim, de facto.
mesmo dentro da eutanásia, há depois o outro grupo, o mais polémico: entre eutanasia voluntária e involuntária, morte assistida, e por aí.

penso que os grupos que condenam a eutanasia o fazem em relação a situações como a do Million Dollar Baby, em que não se trata de uma doença exactamente terminal, mas limitadora da vida e em muitos casos considerada pelos doentes uma vida indigna.
alegam que este é um estado de perturbação psiquiatrica reativa à doença e que poderá ser tratada.

quanto a isto, embora se possam ser criadas condições para que o doente não deseje morrer, penso que a partir de determinado momento,esgotadas essas tentativas, este deveria poder decidir em relação à vida que pretende ter. ou não...

mas isto é uma opinião pessoal, claro.

um beijo.
Cristina disse…
espumante

obrigada eu pelo comentário.

o que se passa é a confusão com a situação da resposta anterior, e o "delírio" de que os medicos ou enfermeiros vão desatar a matar pessoas quando estas forem um estorvo....ja aconteceu noutros países mas são casos de policia. penso que, quanto a isso, ninguem tem duvidas.

beijos
Cristina disse…
sem se ver

nem eu, talvez se quem a condena tivesse acompanhado doentes terminais se desse conta do sadismo que é, em certos casos, prolongar a vida..

beijo
Cristina disse…
Inês

exactamente, não há como assintir, para se poder perceber.

um beijo, obrigada.
Cristina disse…
Sofia
não, não está. fala-se agora de desenvolver os cuidados continuados como um prolongamento do hospital em casa, o que seria muito interessante.

o meu hospital tem um contrato com uma clinica de paliativos para doentes terminais. penso que de algum modo ajuda as familias que não conseguem lidar com a situação...o que já não é mau.

um beijo
Cristina disse…
kaos

caneco!! essa é demais...lol

beijo

ps-fui lá mas não vi as nomeações..
Cristina disse…
jesus na terra

finalmente homem, ressuscitaste mais uma vez?

beijos, bem vindo
Cristina disse…
H. Haller

em principio devia, embora haja muitas particularidades neste querer...dava outro post:)

beijinho
Anónimo disse…
Sou completamente a favor da eutanásia.
Não sei se em mim, mas nos outros, nos familiars mais próximos, etc.

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