a que novos caminhos nos conduzem as novas genealogias?


Uma canadiana congelou os seus óvulos para que sua filha de sete anos de idade os possa usar no futuro.

O caso, apresentado durante uma conferência da European Society for Human Reproduction and Embriology em Lyon, causou polémica entre os especialistas presentes.

A menina, Flavie Boivin, não pode ter filhos por sofrer de uma condição genética chamada Síndrome de Turner. A mãe Melanie, uma advogada de 35 anos, investigou se poderia doar os seus próprios óvulos, conheceu a equipe de Seang Lin Tan responsável por um programa de congelamento de óvulos para doentes com cancro ou pessoas que querem ter filhos mais tarde. Tan pediu o conselho de uma comissão independente de ética e "a comissão de ética concordou (com o congelamento) porque uma mãe que doa a uma filha, faz isso por amor e fica a cargo da filha e do parceiro no futuro decidir se usam ou não os óvulos", disse.
"Estávamos preocupados com as questões éticas - será que eu iria pensar na criança como minha neta ou como minha própria filha?"."Também estávamos preocupados com o impacto financeiro, o impacto físico sobre mim e o impacto emocional sobre a família", disse Melanie.
Depois de um ano, o casal decidiu seguir em frente com o plano.
"O que nos deu certeza foi o fato de que eu estava lá para ajudar minha filha. Se eu podia fazer qualquer coisa ao meu alcance para ajudá-la, eu tinha de fazer, e por causa da minha idade eu tinha de ser agora."
Tan disse que este é o primeiro caso de doação de óvulo de mãe para filha. Já houve casos de doação de irmã para irmã. Uma representante da entidade britânica Comment on Reproductive Ethics, Josephine Quintavalle, disse:
"Posso entender a tristeza da mãe em questão, mas a proposta de doar óvulos para a filha de sete anos com Síndrome de Turner não é algo a ser encorajado". [via BBC]
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Para tentar abordar essas novas formas de família, é necessário compreender a relação entre as novas práticas médicas e as novas práticas sociais, ou seja, entre as evoluções científicas e as transformações sociais nos campos da reprodução e da filiação.
A reprodução apoiada na tecnologia, ao separar sexo e reprodução, irá também separar mães e pais biológicos, por um lado, e mães e pais sociais, por outro. Além disso, trará inúmeras questões tais como: quem é a mãe no caso de doação de óvulo ou de útero?;qual a importância, para a criança, dos pais biológicos?; qual a relação entre pais biológicos e pais sociais?
Ao desarticular sexo e reprodução, ou ainda reprodução e filiação, as novas tecnologias reprodutivas desvinculam a maternidade e a paternidade dos limites e imposições traçados pela tradição e pela biologia humana e obrigam-nos a repensar a ordem simbólica da genealogia tradicional: as novas técnicas médicas subvertem fundamentalmente os nossos princípios identitários.
A revelação da fragilidade da genealogia subordinada à biologia, de algum modo, justifica as várias reivindicações ao direito a formas inéditas de paternidade e maternidade.
Ao separar a reprodução do coito fecundante, ao desfazer a tradicional experiência reprodutiva e ao multiplicar os co-genitores ou co-parentes, essas técnicas criaram situações inéditas que permitiram a consideração de questões atípicas que contornam a sexualidade. Por exemplo, uma pergunta passará a ser colocada à sociedade pelos casais homossexuais: "com que direito vocês nos discriminam, a nós, casais fenomenologicamente estéreis, enquanto pais potenciais, enquanto a sociedade aceita (e financia) as necessidades dos casais estéreis com a condição que eles sejam heterossexuais?"
Paradoxalmente, ou não, as técnicas que começaram a desenvolver-se para fornecer aos casais heterossexuais filhos "naturais", (pela doação de gametas ou embriões), e visando à primeira vista a protecção de uma concepção tradicional da vida familiar, contribuíram largamente para fundamentar novas exigências morais em matéria de procriação.
O manancial de potencialidades e de novas formações familiares possíveis irá, julgo, tender para uma definição de família cada vez mais assente em decisões jurídicas e não biológicas. O que criará um novo problema à medicina: em caso de doença, deve recuperar-se a identidade genética sempre que com ela se possa contribuir para a terapêutica? ou para o despiste de doenças com prevalência familiar significativa? e que consequências daí advirão para a nova familia? Ou, por e simplesmente se assume a nova identidade e o risco cortando definitivamente os laços biológicos?
Não vai ser fácil....

Comentários

Alien8 disse…
Olá, Cristina.

A decisão final fica a cargo da filha e do parceiro. Por isso, a iniciativa da mãe parece-me certa. Permite qualquer coisa, em vez de impedir.

Bom resto de semana e uma beijoca.
Gi disse…
Cris,
Creio que a decisão da mãe para além de emocional foi também racional. Previne, não remedeia.
A filha poderá sempre optar por recorrer a óvulos de uma outra dadora qualquer.
Terminas o texto com uma citação sobre o encorajar esta "herança genética" bom, eu só não encorajo a que "todas" as mães congelem os seus óvulos para prevenirem uma eventual esterilidade das filhas em idade adulta , com ou sem síndrome...isso é que era capaz de ser demais. Ou a alteração genética em assunto é assim tão vulgar?

beijinhos
Anónimo disse…
O mais interessante neste post até nem é o caso desta mãe que por portas travessas tenta minimizar o futuro "sofrimento" da filha. É obvio que este é mais um dos tais casos que servirão de mote para que se abra um precedente na lei.

O que para mim é mais interessante neste post é abordagem que a Cristina faz e fá-lo de uma forma magistral:
"...as novas tecnicas médicas subvertem fundamentalmente os nossos principios identitários."
É um asssunto delicado e que dificilmente é abordado de uma forma tão abrangente e transversal (para os mais distraídos pode parecer demasiado simplista).

Também eu sinto que a definição de familia assenterá em decisões jurídicas e não biológicas.
Quanto às suas perguntas finais a única coisa que sou capaz de sublinhar é que "não vai ser fácil...", desejando que não nos transformemos no "admirável mundo novo" de Aldous Huxley.

Eis mais um post que dá razão ao prémio ganho hoje: "7 maravilhas da blogosfera"

É por estas e por outras que eu tanto gosto do CC.
Bem haja Cristina.
Beijo na ponta do nariz
Anónimo disse…
não é fácil encontrar quem pense como a Cristina.vou digerir o post.
Álex disse…
bottom line, é isso mesmo: cada vez há mais situações novas ás quais se chega pela multiplicidade de descobertas e possibilidades que a ciência passa a permitir e seremos confrontados com novas decisões éticas e jurídicas, mas parece-me fundamental não esquecer nesta equação o peso da parte emotiva - sempre subjectivo mas riquíssimo, indispensável.

180º depois, lembra-se Cristina qdo a propósito do CEDACE perguntava uma sua leitora o por qué de se ter que dar autorização para doar o cordão umbilical apesar de que se não vai para o lixo? pois porque é material que contém informação genética (com tudo o que isso significa)e a mãe deve ter consciência disso e autorizar que terceiros o utilizem.
Unknown disse…
O único problema aqui sao os advogados! Porque pensam que podem fazer tudo o que querem e com a protecçao da lei!

Por mim acabava com essa raça... isso e jornalistas!
CPrice disse…
já havia sido surpreendida pela clareza da sua escrita e mais uma vez me confesso encantada com a forma depurada e leal com que opina sobre algo que .. de delicado tem tudo.
Abraço
Anónimo disse…
Acho que a Dalloway tem razão.

A abordagem do assunto é fantástica.
Temos de começar a deixar de ter tantos problemas morais e éticos, em relação à origem da família.
Mas o problema que se irá colocar à medecina, penso, terá de ser acompanhado da decisão jurídica. Não me parece correcto que a medecina vá recuperar a identidade genética, se a defenição daquela família estiver assente em decisão jurídica e não biológica.
Digo eu, que só pensei nisto agora.

E sim, Cristina não vai ser fácil.
Cristina disse…
Alien

permite. para mim, as novas familias seriam muito mais pacificas se se cortassem definitivamente os laços biologicos. mas isso tem razoáveis implicações clinicas. não é facil.

beijinhos
Cristina disse…
Gi
não não é nada vulgar. ainda falta perceber que tipo de disturbio psicologico esta situação pode desencadear a longo prazo. ainda não há tempo..

beijos
Cristina disse…
dalloway

obrigada. aparentemente seria facilimo limitar as coisas à familia juridica. e tão tentador....mas e depois? sabendo nós que a evolução se faz tambem no sentido de aproveitar os laços de sangue em proveito da saúde, como se vão resolver estas situações? para o bem e para o mal, a genetica existe e não pode ser desprezada. sob pena de colocarmos de lado uma boa dose de potenciais terapeuticas e prevenções.
muito ha a pensar sobre isto, ainda.

beijos princesa.
Cristina disse…
sarol

é facil é! só que quem pensa nestes assuntos não anda habitualmente pela blogosfera ;)

um beijo
Cristina disse…
Eric

ora aqui está um rapaz prático! é sim senhor :)))))

beijocas miudo!
Cristina disse…
álex

exacto, aí está a resposta. e a prova de que a genética continua a ser uma marca importante e inviolável. será que conseguiremos ultrapassá-la?

um beijo
Cristina disse…
desi

não digas isso, o mundo sem os dois seria uma paz entediante :))))

bjinhos
Cristina disse…
Once In a While

estes são assuntos que para mim são relativamente fáceis de tratar. estou habituada a pensar neles não de um ponto de vista moral ou social, mas técnico. e é nesse sentido que vão as minhas dúvidas, dos problemas que poderão ser colocados do ponto de vista medico às novas familias...

um beijinho, obrigada pelo comentário:)
Cristina disse…
marta

e se surgir uma doença de caracter genetico? daquelas em que se deve despistar a possibilidade de vir a existir no resto da familia? deve ser ignorado, o que acha?

beijo
Anónimo disse…
Olá Cristina

Sou capaz de estar a pensar asneira, mas não será um problema idêntico o que acontece com os bancos de òvulos ou sémen, para as inseminações artificiais?


Beijinhos
Cristina disse…
marta

igualzinho...o problema são as novas familias e o corte com a base biológica. haverá sempre problemas muito dificeis de ultrapassar..

bj
Anónimo disse…
Oi Cristina

percebo perfeitamente o ponto de vista das dificuldades que se avizinham.
Mas com os tais bancos de óvulos e sémen, corta-se já radicalmente com a base biológica, ou não?


Beijinhos
olá! tenho ST e por essa razão consigo compreender o motivo que levou essa mãe a congelar os seus óvulos. a verdade é que é uma situação delicada. todos temos planos para o nosso futuro e sonhamos com ele. para mim, que tenho agora 23 anos é muito dura esta realidade. sinto muitas vezes que perdi, efectivamente, um filho e nem sequer tenho memórias dele para me confortar...
Também sou estudante de Direito e sei por exemplo que em Portugal é permitida a doação de ovócitos da mãe, e de outras mulheres que sejam do mesmo lado da família da mãe, como são as irmãs e tias da mulher que os vai receber.
Cristina disse…
Carla

que bom, sendo assim ha alguma esperança não?

obrigada por ter comentado, um abraço:)

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