Existem pessoas

que, ou não deviam existir, ou que existissem longe, sozinhas, onde não houvesse oportunidade de mostrar às outras pessoas o carácter de que são feitas.
Digo isto em dia de mais uma desilusão a juntar a tantas outras em que vamos tropeçando na vida, sempre com a realidade a ultrapassar a ficção.
Ele era um homem de 80 anos, diferenciado, sem família chegada, a quem uma empregada com 20 anos de casa fazia a limpeza, as compras, a comida e quando sobrava tempo, alguma companhia. Confiava nela. Era a única pessoa a quem podia recorrer, a única pessoa que lhe dava atenção e a quem confiou tudo o que tinha tendo com o aproximar do fim da vida decidido fazer-lhe testamento. Há dois, três meses, segundo me contou. Foi internado há dias atrás com um acidente vascular cerebral. Falou-me da sua solidão, dos poemas que fazia, dos livros que lia e principalmente da sua tristeza por os poucos familiares que lhe restavam, nomeadamente uma sobrinha de quem gostava muito, não o visitar há muitas semanas nem sequer lhe fazer um telefonema. Tenho pena, disse, eu gostava muito das tardes em que ela me visitava e lhe lia os meus poemas de que ela parecia gostar muito. Nunca mais apareceu; os filhos, o emprego, talvez...
Ontem, pela primeira vez desde que o senhor foi internado havia alguém para falar comigo, a tal empregada; queria informações. Expliquei a situação e disse-lhe que se tudo corresse bem ele iria para casa mas ficaria provavelmente acamado e dependente. Olhou para mim irritada e perguntou se a segurança social não podia tomar conta dele, que ele não tem ninguém! Fiquei atónita. Então, tem pelo menos "herdeiros", não? A mulher acusou o toque. Isso não tem nada a ver! Uma coisa é ele ser autónomo e outra é estar acamado, eu não trato dele assim! Tenho a minha vida, não vou pra lá dormir! A reforma dele dá para pagar um lar e eu não lhe sou nada, não tenho obrigação. Ainda tentei dissuadi-la: se a reforma dele é boa, pode arranjar outra empregada que esteja lá durante a noite, se for necessário, não acha que era mais humano? A mulher ficou indignada com a "ousadia". Que outra pessoa lá em casa qual quê, que se ele estivesse dependente tinha que ir pra algum lado, que ela é que decidia e que não queria lá ninguém. Assim mesmo. A conversa acabou aí.
O Sr. faleceu esta madrugada.
Esta manhã, recebi a visita da sobrinha de quem tanto me falou. Só tinha sabido ontem à noite que ele estava no Hospital por um amigo comum e estava visivelmente triste por não o ver há muitos dias, semanas. Perguntei porque não o visitava há tanto tempo, explicou-me que já há tempos que tentava lá ir ao fim de semana mas que a senhora que tomava conta dele lhe dissera que o tio não estava bom da cabeça, que não dizia coisa com coisa, que estava agressivo, que estava a ser medicado e quando melhorasse a avisava. Tinha ficado à espera. Como é que foi o fim? Perguntou. Lúcido, perfeitamente lúcido.
Digo isto em dia de mais uma desilusão a juntar a tantas outras em que vamos tropeçando na vida, sempre com a realidade a ultrapassar a ficção.
Ele era um homem de 80 anos, diferenciado, sem família chegada, a quem uma empregada com 20 anos de casa fazia a limpeza, as compras, a comida e quando sobrava tempo, alguma companhia. Confiava nela. Era a única pessoa a quem podia recorrer, a única pessoa que lhe dava atenção e a quem confiou tudo o que tinha tendo com o aproximar do fim da vida decidido fazer-lhe testamento. Há dois, três meses, segundo me contou. Foi internado há dias atrás com um acidente vascular cerebral. Falou-me da sua solidão, dos poemas que fazia, dos livros que lia e principalmente da sua tristeza por os poucos familiares que lhe restavam, nomeadamente uma sobrinha de quem gostava muito, não o visitar há muitas semanas nem sequer lhe fazer um telefonema. Tenho pena, disse, eu gostava muito das tardes em que ela me visitava e lhe lia os meus poemas de que ela parecia gostar muito. Nunca mais apareceu; os filhos, o emprego, talvez...
Ontem, pela primeira vez desde que o senhor foi internado havia alguém para falar comigo, a tal empregada; queria informações. Expliquei a situação e disse-lhe que se tudo corresse bem ele iria para casa mas ficaria provavelmente acamado e dependente. Olhou para mim irritada e perguntou se a segurança social não podia tomar conta dele, que ele não tem ninguém! Fiquei atónita. Então, tem pelo menos "herdeiros", não? A mulher acusou o toque. Isso não tem nada a ver! Uma coisa é ele ser autónomo e outra é estar acamado, eu não trato dele assim! Tenho a minha vida, não vou pra lá dormir! A reforma dele dá para pagar um lar e eu não lhe sou nada, não tenho obrigação. Ainda tentei dissuadi-la: se a reforma dele é boa, pode arranjar outra empregada que esteja lá durante a noite, se for necessário, não acha que era mais humano? A mulher ficou indignada com a "ousadia". Que outra pessoa lá em casa qual quê, que se ele estivesse dependente tinha que ir pra algum lado, que ela é que decidia e que não queria lá ninguém. Assim mesmo. A conversa acabou aí.
O Sr. faleceu esta madrugada.
Esta manhã, recebi a visita da sobrinha de quem tanto me falou. Só tinha sabido ontem à noite que ele estava no Hospital por um amigo comum e estava visivelmente triste por não o ver há muitos dias, semanas. Perguntei porque não o visitava há tanto tempo, explicou-me que já há tempos que tentava lá ir ao fim de semana mas que a senhora que tomava conta dele lhe dissera que o tio não estava bom da cabeça, que não dizia coisa com coisa, que estava agressivo, que estava a ser medicado e quando melhorasse a avisava. Tinha ficado à espera. Como é que foi o fim? Perguntou. Lúcido, perfeitamente lúcido.


Comentários
(nao ligue, é o coraçao a sangrar. grande post, cristina. p*** de vida esta, caraças)
Tenho que comentar em jeito meio leve porque o que aqui trazes é demasiado pesado, embora real.
Caramba! Que histórias a vida nos proporciona...
E não consigo dizer mais nada.
Bj
enfim... há gente que nao merece o O2 que consome.... o único bem que fazem é mesmo produzir CO2 para as plantas continuarem a viver e dar-nos O2... poluído de teias de aranha, mas enfim... é o que há!
E o pior ... sabe cristina ... porque eu sou muito atenta e observadora do que me rodeia, ... é que este comportamento desta empregada, também é frequente, em filhos, noras e genros.
Há pessoas que não têm necessidade de serem institucionalizadas em lares. Têm condições económicas suficientemente boas, para poderem ser apoiadas em casa, de forma profissional, e com o carinho da família.
Mas a família, é uma entidade que em muitos casos só existe, de forma abstracta. Já não há lugar para o afecto.
O individualismo supera os Valores de Família.
E assim, morrem pessoas, na maior solidão. Pessoas que dedicaram a sua vida, o seu esforço e o seu amor, áqueles que, na parte derradeira de sua vida, serão exactamente, os que os irão desprezar.
Ah, mas no dia a seguir ao funeral, 'bora lá tratar da partilha dos bens....
pois....
life is unfair ... so much !
um beijo Amiga
Esta realidade é um murro no estomago que tantas vezes sentimos.
Beijos e fica bem
humf, estragam-me tantos dias, tantos, mesmo.
habituamo-nos, mas custa.
sorry..
beijinhos
nem fazes uma ideia, há coisas que contadas nem se acredita..
beijo
incrivel, não é? havias de ver a agressividade da mulher quando lhe falei em outra pessoa lá em casa. mais um pouco batia-me..
beijos
só que...esses conselhos de anciãos existiam porque os velhos eram sinal de sabedoria, agora o conhecimento está nas mãos dos novos. os velhos passaram a inúteis.
neste caso era por outro motivo..
beijos
pois é..ja tenho dito que era um bom programa de televisão, pôr umas camaras num hospital e registar o que certas familias dizem...
um beijo
também ha sim. aqui ha tempos falei de um filho que não tinha dinheiro para fazer o funeral ao pai. mas ía fazê-lo,se calhar pedindo emprestado como ja tinha acontecido com o da mãe.. e tinha-o visitado sempre durante o internamento. no entanto disse-me que tinha sido sempre maltratado, espancado, etc..
coisas.
é. quando as pessoas estão lucidas e percebem o que se está a passar ainda pior. este felizmente nao percebeu.
um beijo
claro, a maioria dos casos é mesmo com os filhos! até já houve 2 familias que queriam levar notarios para a enfermaria e tudo, para doações e o raio...
a proposito do apoio, as familias queixam-se, com razão, que os lares são caros. eu estou farta de dizer que uma empregada em casa, até a tempo inteiro, é mais barato que um lar. e é! o problema é que têm que estar em casa!
outra coisa que me faz impressão são as ídas directas para o lar. se a pessoa tiver alta à 6ª e entrar no lar na 2ª, pedem pra ter alta na segunda!, nem um fim de semana pode estar em casa, é impressionante.
beijos
acreditas que eu quando vou dizer a alguem que o/a velhote/a tem alta já vou psicologicamente preparada para uma guerra?
pá, eu sei que é muito dificil caramba. não somos carascos. o que me impressiona é o desprezo. ha algumas excepções que não podendo ter os velhos em casa, se empenham em arranjar solução, vê-se que querem arranjar um sítio perto de casa e tudo isso. compreende-se e ajuda-se. ha outros que são cães.tout cour.
beijos
na urgencia então...até se pode escolher: drama ou comédia.
:))
olha, falando em televisão, vi ha tempos um actor na televisão a falar na mãe(por qualquer razão nesse dia falava-se de mães..) e dedicou-lhe um poema, que leu.
pois a mãe morreu no meu hospital.nunca lá pôs os pés. e ela bem se lamentou, coitada..
enfim.
Deixo um beijo
Mas essa situação que partilhaste connosco, é também um reflexo do desprezo com que as sociedades ocidentais, com raras excepções, tratam os seus idosos em oposição, por exemplo, às sociedades orientais que vêm no veterano (não gosto da palavra velho) alguém especial.
Triste, muito triste.
Beijo
Um beijo, Cristina
Quanto à sobrinha, bem, pois, havia uma empregada qualquer dizer-me que eu não podia ver o meu tio, se a relação com ele fosse próxima como a descreves...
beijocas
Eu, josef mario, devo dizer a companheira, com a sinceridade que me eh caracteristica, que esta companheira empregada, apenas confirma, mais uma vez, a minha tese quanto a indole perversa e ma do ser humano em geral. Esta companheira empregada, todavia, teve uma grande qualidade - foi sincera e não dissimulada, como a maioria das pessoas.
Eu, josef mario, devo dizer, finalmente, que, na minha modesta opinião a maior vilã da historia foi esta companheira sobrinha que, com cinismo e falsidade, alega que foi impedida de ver o companheiro tio doente. Me parece obvio que esta companheira sobrinha não fez o menor esforço para faze-lo. Quando não temos interesse em alguma coisa, não faltam motivos e desculpas para evita-los.
Muito obrigado.
josef mario
nem mais. os amigos, são isso mesmo: amigos.
e estamos na época alta dessas situações, infelizmente.
beijocas
custa-me muito quando os vejo desistir da vida. porque desistem, ja não protestam, ja não se queixam, ja nem falam... e morrem mais depressa.
um beijo
sabes, às vezes a pessoa vai adiando, nem lhe passa pela cabeça o que está a acontecer, e quando dá por isso passaram 2 ou 3 meses. não é nada dificil.
talvez tenha pensado que preferia ir la quando ele ja pudesse conversar com ela, ou isso, sei lá..
o facto é que a outra apostou e ganhou. é a vida. triste.
beijinhos
percebo o que queres dizer, mas vendo uma e outra, eu não acho isso. a sobrinha ficou horrorizada quando percebeu que tinha sido enganada. apesar de tudo é uma sobrinha que lá ía de vez em quando e que acreditou que era melhor esperar uns dias que ele melhorasse. enfim, poderia ter ído na mesma, mas depois é facil chegar a essa conclusão, né?
quantas vezes adiamos coisas importantes e quando damos por isso vemos que fizemos asneira. quantas..
um beijo
podes crer!
um beijo
Continua válido o dito popular de "quem se deserda antes que morra, merece com uma cachaporra".
Em vez de criticar empregada ou sobrinha (apesar de achar a atitude da primeira inademissível) vou reflectir e olhar à minha volta para ver se não estou a ter atitudes erradas para com os que me rodeiam.
Bem haja.
uma lição, o seu comentário. obrigada
um beijo
Esta é só uma história mas há tantas, parecidas, iguais, diferentes...
Esta é a realidade que vemos no dia a dia, especialmente nas enfermarias de Medicina Interna e nas Urgências e SOs.
Ainda mais triste quando em vez de simples empregadas/herdeiras, as mesmissímas atitudes são tomadas por familiares directos, não raramente filhos!
E quando se aproximam as férias e os filhos deixam os pais nas salas de espera, abandonados, até que alguém repara e acaba por os internar quando os velhotes já não conseguem identificar-se nem descrever a morada? E não é que, passada a quinzena de férias, com o ar mais descarado do mundo passam pelo hospital a perguntar se por acaso o pai ou a mãe lá estão internados porque regressaram de férias e nã sabem deles!
E o martirio das urgências à 5ª e à 6ª feira, no verão, quando os filhos tentam por todos os meios possíveis o internamento dos pais para poderem ir de fim de semana?
E os muitos que já sabem os truques necessários para obterem o internamento dos pais, por exemplo não lhes dando liquidos para os velhotes desidratarem?
E o descaramento dos que entram,, cheios de lábia na urgência, a dizer que o pai tem que ser internado porque está mito desidratado e tem que ficar a soro?
É o país que temos, a sociedade que temos, o egoísmo exacerbado e a completa ausência de valores morais e humanos.
E não vemos os governantes e os líderes de opinião, tantas vezes, tomarem atitudes semelhantes?
Como diz a colega, e com razão, muitas vezes o dificil não é tratar os doentes, é comunicar às familias a sua alta...!
Cordiais saudações
António Ventura
www.emgestaocorrente.blogs.sapo.pt
obrigada pela visita:)
como eu conheço essa realidade! geralmente acabo o Banco com a assistente social a dizer que estão 2 ou 3 cá fora há mais de 24 horas, sem solução à vista, e a pedir para os internar até se resolver o problema social. e claro que ao fim de muitas horas,sem comer e sem medicação, passam a ter motivos para ficar..
e claro que a grande maioria dos problemas são com os filhos.
é o resultado do contexto socio-económico em que estão, mas é sobretudo um desprezo e uma falta de interesse angustiante.
um abraço
Sei de tudo isso, na pele....e não me arrependo de nada do que fiz.
É uma questão de civismo e de civilização.