talvez devesse ser um mail, mas fica um post.

A Joana Lopes do Entre as Brumas da memória, pediu-me uma lista de 10 livros que não mudaram a minha vida. O que me foi pedir, Joana! É muito difícil; para ser sincera, só dois ou três autores (não livros) influenciaram a minha vinha e isto, no sentido de me dar um outro olhar sobre o mundo porque na verdade, os únicos que posso dizer que mudaram o curso das coisas foram os técnicos, esses sim, mudaram o meu percurso e a minha vida. O resto, são histórias, opiniões, sentires, que posso achar mais ou menos interessantes, que coincidem mais ou menos com os meus, mas sem chegar realmente a mudar alguma coisa. Poderei dizer que não os releria, como habitualmente não releio livro nenhum(posso reler uma frase ou um capítulo), não revejo filmes(revejo cenas), raramente volto aos mesmo lugares, e por aí.... neste contexto, dizer que «Os Sequestrados de Altona» de Jean-Paul Sartre não me aqueceu nem me arrefeceu, apesar de gostar de caranguejos, não me parece muito significativo. Ou que as abelhas cegas e obcecadas d' «Uma abelha na chuva» de Carlos de Oliveira nunca me vão tirar o sono, é exagero, quem sabe se não irão elas, ou mesmo a chuva, ainda inspirar belos e marcantes pesadelos? Por outro lado, ler «Hei-de cuspir-vos na campa» não modificou a minha vida, até porque não sou dada a ambientes sinistros, mas modificou muito a de Boris Vian, que até foi acusado de autor moral de um homicídio por causa disso. No entanto, embora inocente nessa história, gostei de ler. Esse e outros.
Depois, há outros livros como «Retalhos da Vida de um Médico » de Fernando Namora que não mudaram nada pela simples razão de que nessa época lia com muito mais interesse o meu colega de turma, um rapaz digno de toda a atenção possivel.....tenho pena, mas nessa altura a felicidade estava mais ao lado. E disso nunca nos devemos arrepender :)
Continuando, por exemplo o «Fazes-me Falta» da Inês Pedrosa, também não modificou a minha vida, uma vez que não passei a ecreditar que se pode falar com os mortos, o que na verdade, era bem capaz de causar alguns constrangimentos. Mas não deixei de gostar de ler. Assim como «A viagem ao Mundo da Droga» de Charles Duchaussois, embora não tenha mudado nada, felizmente -a única mudança possivel seria passar a consumir drogas-, gostei de o ler e gostei dessa viagem. Ou os poemas de Aleksandr Púchkin, «O cavaleiro de Bronze e outros», que li recentemente, e que este sim, foi perda de tempo.
Agora, se lhe disser que li «A Mulher na Sala e na Cozinha» de Laura Santos, famosíssimo e sempre conveniente a qualquer dona de casa diga desse nome e não aproveitei grande coisa, à minha amiga a informação não interessará nada, mas aos comensais da casa, garanto que causa alguma angústia. Já a família, uma pequena parte dela, é certo, nunca se conformou com o facto de a "cartilha da catequese" não ter feito de mim uma boa cristã. E que coisas como «Os melhores SPAS de todo o mundo», também não mudaram nada, desta vez para grande desgosto meu.
Portanto, tudo depende das espectativas e do contexto em que os lemos. Como disse acima, os únicos livros que de facto mudaram a minha vida foram os livros técnics, os restantes, só me ajudaram a fazer conecções, mas mudar, não mudaram, verdadeiramente.
Daí a dificuldade, Joana.


Comentários
Hoje nem tanto, que ando mais pelo multibanco, mas na altura em que o choque tecnológico ainda não chocava, o livro de cheques era determinante.
Principalmente quando lhe fazia a leitura pelo canhoto.
Só uma observação: sou LOPES e não LEMOS - essa corre, eu sou mais para o sedentário...
claro, desculpe, enganei-me.
anima sim! e além de se criarem elos, ajuda a conhecermo-nos um pouco melhor, isso ao fim de meses ou anos dá uma imagem bem real de quem está do outro lado :))
um beijo
tem toda a razão! e tanto quando se usa, como quando não se usa :)))
beijinho
Comecei cedo a perceber que entrava em outros mundos através deles.
Um dos que me influenciaram na Juventude foi O " Despertar dos Mágicos", depois "Os Cem anos de solidão" "O Aleph e as Ruinas Circulares "
Hoje leio pelo prazer de ler e é mais Poesia.
O A. O`Neil ...
Beijos grandes
leio agora muito menos do que lia ainda há uma dezena de anos, leio sobre tudo ensaios ou poesia, e foi durante a minha adolescência que mais li. a minha vida não mudou com as minhas leituras, mas durante o tempo em que lia, vivia num parêntesis, a minha recriação imaginária das ficções arquitectadas pelos autores. adolescente, porque tinha mais tempo e porque podia ler um livro inteiro sem interromper, quando gostava muito do que estava a ler e que o fim da leitura já estava anunciado, chegava a recomeçar a ler os dois últimos capítulos, antes de conhecer o fim, para fazer durar mais tempo o prazer... não vos faz pensar em nada !?... e, claro que a minha visão do mundo deve muito a muito do que li, "viver" vidas, que nunca poderia ter vivido, reflectir sobre a condição humana e outras coisas menos sérias, sem as experiências, antecipar sobre o real.
uma das leituras de adolescência que mais me marcaram, foi a biografia de Florence Nightingale, ainda com 9 ou 10 anos, os clássicos e menos clássicos, antes dos 15 já tinha lido todo o Camilo e quase todo o Eça mais os Hemingaws e Steinbecks e outros Dostoyevskys, nessa altura lia tudo o que me aparecia pela frente.
a leitura de ficções, claro está, para mim, é quase como o desempenho de papéis no teatro - aliás, gosto muito de ler peças de teatro - para um actor, mas onde posso desempenhar todos os papéis, quando no mundo real só me é permitido ter uma vida limitada a uma só personagem contida num só destino feito de acaso, necessidade e "providência", e, é por isso que o que se está a passar com o "second life" me está a divertir, e sem ainda lá ter entrado... aí também deve coexistir o medíocre com o menos mau, como na vida e na literatura, mas só a ideia de que alguém possa ter "outra vida" para além da sua, acho isso divertido, enquanto for apenas lúdico... os problemas e as confusões já começaram a aparecer!
não posso dizer que "1" me inflenciou, mas se tivesse que escolher, escolheria o primeiro que foi "o céu não tem favoritos" de Remarque. foi um choque e a primeira vez que me confrontei com o facto de sermos seres muito frageis e perecíveis, mesmo que as circunstâncias apontem noutro sentido. isso foi reforçado pela profissão e mantém-se sempre no meu espirito.
um beijo
que engraçado, temos um percurso muito semelhante:))
também li muito mais na adolescência, exactamente durante o liceu, e os meus preferidos são os mesmos com Eric Remarque e Irwing Walace, este foi muito importante por motivos que je referi num post.
agora, leio só o que tenho muita curiosidade de ler, não como antes que ía à descoberta dos autores :)
um beijinho