o hábito faz o hábito



Do DN.


O programa de troca de seringas nas prisões portuguesas vai finalmente avançar este mês, a partir de dia 24, em dois estabelecimentos - e de Lisboa e o de Paços de Ferreira - depois de estar previsto na lei desde 2001. "Analisadas várias opções e discutido o assunto localmente, com o pessoal dos estabelecimentos", decidiu-se, diz Henrique Barros, o coordenador do Programa Nacional para Infecção HIV/sida, que a troca, que será iniciada "a título experimental", será efectuada pelos corpos clínicos dos estabelecimentos, tendo-se deixado para já cair a hipótese de máquinas dispensadoras, defendida em tempos por vários responsáveis.
Permanece apenas uma "decisão bizarra" : onde decorrerá a injecção - se na cela do recluso ou nas instalações clínicas. A indecisão, deve-se ao facto de este programa sempre ter contado com a hostilidade do pessoal prisional, que vê as seringas como armas que poderão ser usadas contra si. Há também na opinião pública, quem entenda que a medida é capitular perante uma realidade que todos gostariam de ver abolida: a droga nas prisões.
A questão não é portanto nova e já foi motivo de acesos debetes, até por aqui.
A polémica mantém-se apesar de o nome do programa que trata o assunto dizer tudo: Programa Nacional para Infecção HIV/sida. E não, "programa de combate à droga". A questão aqui, é efectivamente ter a coragem de assumir que temos um problema, uma doença, e que temos que evitar que ela alastre sob pena de, daqui por uns anos, termos o mesmo problema com dimensões bastante mais dramáticas. Somos , já nesta altura, um dos países com maior prevalência de SIDA /VHB/VHC nas prisões. E já agora, fora delas. A distribuição de seringas é fundamental, assim como é fundamental a distribuição de preservativos.
Como diz Henrique Barros, epidemiologista, o que é possível relevar, são os estudos existentes que demonstram o quão importante é assegurar que os utilizadores de drogas por via endovenosa não partilhem o material de injecção. Sobretudo num meio em que a prevalência de infecções como o HIV/sida e a hepatite C atinge níveis assustadores: 10% dos cerca de 12 mil reclusos estão infectados com HIV, e pelo menos o dobro terão hepatite C.
As pessoas que condenam estas medidas, que as consideram um sinal de degradação social e moral, e uma cedência perante comportamentos reprováveis, estão provavelmente a esquecer-se que estes indivíduos que partilham as seringas e os virus nas prisões não estarão lá para sempre, e que quando saem fazem uma vida social e sexual igual aos outros; mais, não são portadores de letreiro algum que nos previna para o perigo. Eles existem, andam por aí e são um problema real de hoje, de agora, desta noite se Sábado em qualquer discoteca.

Comentários

Anónimo disse…
Esta coisa que droga nas prisões...não vejo com muito sentido, mas deixa para lá...não é para isso que cá venho.
Venho para desejar um bom fim-de-semana, deixar um beijo e sobre o post dos livros ali em baixo...
também não gostavas do Eric Maria Remarque? ;)
O céu não tem favoritos , este lugar para mim ainda continua a ser o favorito.
Pêndulo disse…
É restaurar a pena de morte que se elimina esse dilema eh eh eh
Estou contigo Cristina...é preciso que as pessoas percebam MESMO o que pode estar em jogo! Bom domingo...
Cristina disse…
afilhado

olá!!! precisamente, "o céu não tem favoritos" foi o primeiro romance a sério que li. e fiquei tão chocada que andei semanas a pensar no livro. foi logo a partir daí que percebi que qualquer um de nós está pronto para morrer a qualquer momento. como disse no post abaixo, esta ideia reforçou-se com a profissão e ainda agora continua muito presente. isso faz-me valorizar mais aquiço de que gosto, e por outro lado desvalorizar rapidamente o que não gosto.

:) esse sim, influenciou-me. o autor, em todos os livros.
esse, Pessoa e Walace.
Cristina disse…
amigona

espero que percebam...:)

beijinhos
Anónimo disse…
Hoje até tinha fumado um charro para suavizar um dos dias mais complicados deste ano e nem teria sido preciso ir à discoteca...
e-ko disse…
já venho tarde como de costume, mas se é essencial que se tomem medidas sérias e urgentes para evitar a propagação de doenças tão graves, entre os reclusos, essas medidas têm que ser levadas a sério também cá fora e sem olhar a economias... as economias nestas esferas sociais ficam sempre muito caras!!!!

Também a organização da "vida" nas prisões tem que ser repensada... para que possa vir a ser uma "oportunidade", para quem lá cai, de repensar uma reconquista dum lugar digno na sociedade... creio (juraria) que a máquina do Estado, de que todos nós fazemos parte com vários graus de responsabilidade, não está a fazer nada de relevante para que isso possa acontecer...
Cristina disse…
e-ko

mas isso da reabilitação que é suposto fazer-se, faz-se alguma coisa, para quem está disponivel para aprender e ser ajudado claro, mas não é um problema nosso ou do nosso governo. os outros paises têm problemas identicos.

agora, indiscutivel é a necessidade de prevenção de doenças e isso não pode esperar por reabilitações. essa é que é a verdade. :))

beijos

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