livre mas não tanto..

A e-Konoklasta chamou à atenção no seu blog para um artigo do DN em que afirma, citando o último estudo da ProTest a partir de uma amostra de 330 farmácias e 205 lojas, que há medicamentos de venda livre que estão a sair da fábrica com o dobro do preço de antes da liberalização. O artigo diz o seguinte:
Com a liberalização do preço, deixou de haver também margens de lucro fixas para os intervenientes do sector. Dos laboratórios às farmácias, passando pelos grossistas, todos passaram a regular-se apenas pelas regras do mercado livre. Partindo da análise dos 20 medicamentos mais vendidos, a Protest conclui que a escalada de preços se deve às farmácias. Se, em média, as lojas vendem 1% mais caro, as farmácias comercializam os medicamentos 6,3% acima de quando o Estado fixava os preços a praticar.
Contactada pelo DN, a Associação Nacional de Farmácias (ANF) escusou-se a dar informações sobre os preços praticados pelos seus associados. E também não adianta quais as margens de lucro que cada estabelecimento segue. "O Governo entendeu, a dada altura, pôr o mercado a funcionar. E isto é o mercado a funcionar", diz fonte da associação liderada por João Cordeiro.
.
É, é o mercado a funcionar. Mais propriamente, 95% do mercado. Quando uma associação detém 95% do mercado sem margens de lucro fixas e se lhe permite não dar justificações sobre os preços praticados, o mercado funciona e bem! Só que no caso da saúde, a liberdade do mercado devia obrigar a outras contas...a limites.
Entretanto, a futura associação de empresas de venda de fármacos não sujeitos a receita médica (MNSRM), anunciada pelo maior grupo de um sector nascido em Setembro do ano passado -a Cotapharma- reafirmou que em causa estão dificuldades de acesso aos distribuidores de fármacos - já amplamente denunciadas e alvo de inspecções do Infarmed ainda sem resultados conhecidos. " a compra de medicamentos aos distribuidores é em média, 8% mais cara para nós do que para as farmácias", disse Rui Santos, do grupo Cota.
Por outro lado, espantaram-me as declarações num dos jornais da noite, da responsável de uma parafarmácia (de quem não retive o nome) quando deu um exemplo das facilidades concedidas pelos laboratórios: qualquer coisa como "em 100 caixas, o laboratório oferece-nos 10 enquanto à farmácia oferece 50". Não é dificil, portanto, tirar algumas conclusões.
Apesar de tudo, há uma noticia boa: diz ainda o artigo que a tutela está, finalmente, a estudar medidas que tornarão obrigatório que as farmácias reportem dados das vendas de remédios em ambulatório à autoridade do medicamento. Continuo a acreditar que a liberalização tem a obrigação de reduzir os preços mas, se de facto o mercado puder funcionar, porque assim, é difícil. E quando se trata de saúde como um bem a ser salvaguardado, da mesma forma que a intenção da liberalização era a vantagem que o doente supostamente daí devia retirar, se o contrário se verificar, a tutela deve igualmente intervir, sob pena de ser posta em causa a legitimidade da actual legislação.

Comentários

Anónimo disse…
É muito cedo ou tarde, (depende da perspectiva) para deixar um comento sobre este assunto. Logo digo alguma coisa.

Bom dia Cristina
Anónimo disse…
A tutela intervir num assunto que foi criado, não para defender os doentes mas para beneficiar o monopólio farmacêutico?
Não vejo como...
Mas alguém tem que fazer algo.

Bolas, estou a levantar-me muito cedo.

Bj
Pêndulo disse…
Mas isto é mesmo o mercado a funcionar. Pensa bem, qual é o cliente com maior volume de compras ? As farmácias. Qual o cliente com maior distribuição de pontos de venda ? As farmácias. Qual o cliente para o qual é possível optimizar a entrega de produto diminuindo os custos de transporte? As farmácias (porque são mais um veículo não vai entregar só um caixote de aspirinas, aproveita e entrega outras coisas no percurso). Se se for produtor com quem se tem relações preferenciais, com quem representa centenas de pontos de venda ou com quem representa meia dúzia?
Qual a ambição de uma empresa no mercado ? Crescer e ser dominante. A SONAE lançou a OPA à PT para quê ? Para ficar maior e dominar. O BCP lançou a OPA ao BPI porquê ? Porque, entre outras coisas, aumentava os seus lucros pela economia de escala.
Cristina, o "mercado puro" é naturalmente auto-destrutivo. Uma empresa eficiente ganha tal dimensão que absorve as concorrentes ou estas não vendem e torna-se monopolista.
Quando há queixas de o mercado não estar a funcionar o que se quer, na realidade, é que ele não funcione.
Daí as regras legais existentes em todos os países. Outra coisa são e foram as condições para se abrir uma farmácia. É conversa antiga e de tal modo caricata que não cabe aqui falar nisso.
Neste caso, pela sua natureza vital, é importante a intervenção governamental (assim como em Cuba, táver ?) para que a população seja defendida.


(ando à procura de uma notícia recente de uma inspecção que detectou inúmeras irregularidades na aquisição de medicamentos pelos hospitais mas não encontro)
Icreate disse…
há uns dias (quinta 9) deixei um comentário no blog do Kaos, no post "o resfolegar da raiva contida" (para quem quizer consultar),onde enumerei três medidas do governo para contribuir para o enriquecimento dos portugueses, e este assunto, para mim encaixa-se na lista.
ainda que o governo não esteja directamente ligado aos preços, foram eles que decretaram a liberalização. e tal como aconteceu com a gasolina, os preços dispararam de imediato.
é uma teoria, mas desta forma, os mais probres têm 2 opções. ou morrem ou emigram. de qualquer uma das formas só cá ficam os ricos e como consequencia o pais enriquece.

jocas
Cristina disse…
dalloway

mas quando é que a menina dorme? aiaiaiai, assim não vai ver este sol lindo!

beijocas
Cristina disse…
reporter

a liberalização não foi feita para benificiar as farmácias. em espanha por exemplo, compras medicamentos em todo o lado bem mais barato, e é assim que devia ser.

o problama é o cartelismo.
Cristina disse…
pendulo

claro que é o mercado a funcionar e explicas bem como funciona. mas determinados sectores a coisa não pode ser tão selvagem assim.

dei o exemplo da espanha em que o mercado funciona com beneficio para o cliente como é natural, penso que isso é que é a lei natural da concorrencia.

há-de haver regras que eu não conheço. será que o fazem de maneira legal, cumprindo todas as regras? isso é que eu gostava de saber...
Cristina disse…
icreate

na minha opinião a liberalização do mercado, a concorrencia, beneficia sempre o cliente desde que não sejam permitidas determinadas manobras, percebes o que quero dizer?
Icreate disse…
é claro que percebo!
só não se pode esquecer que estamos em Portugal! se as empresas se sentem livres para aumentar o preço dos seus produtos é claro que o vao fazer!! querem é saber de ganhar mais dinheiro!ainda por cima quando o produto envolvido é um "bem essencial" como os medicamentos.

jocas
Anónimo disse…
Claro, Cristina. A liberalização foi feita para beneficiar cá o rapaz e outros "cumamim".
Oh p'ra eles a deixar vir a mim o seu dinheirinho...

;)
Anónimo disse…
Sei não...
Isso aí está me cheirando cartel.
Quer ver o mercado funcionar? Liberem as importações que eles se lascam!
Alexandre - Anápolis
Cristina disse…
Alexandre

e compravam que medicamentos? só se for os maid in taiwan, os que fornecem os hospitais em áfrica...
Anónimo disse…
Cristina:

O Ministério da Saúde brasileiro recentemente comprou medicamentos da India, aqui no Brasil também se fabricam medicamentos...
Se os medicamentos na Espanha estão mais baratos que aí em Portugal, comprem o mais barato!
Importem o mais barato...
Alexandre - Anápolis
Anónimo disse…
Espero perceber um pouco melhor acerca desta liberalização dos medicamentos daqui a uns 6 meses porque quero acreditar que assim tiveram tempo suficiente para interiorizar as regras, as formas e requesitos deste negócio.
Espero que consigamos entrar em sintonia para bem do consumidor.

Tenho muitas dúvidas para esclarecer. A Cristina dá o exemplo de Espanha e eu dou o de Inglaterra.

Ah...aqui a menina ao enviar-lhe o primeiro comento deste post já tinha dormido e tomado o pequeno almoço.
Isto acontece quando se chega a uma sexta-feira para além de cansada e se adormece tão cedo, tão cedo.... e só acorda no dia seguinte (nem me lembro se jantei!)
Vou a uma parafarmácia ver se eles têm algum medicamento para alguém que ainda não tirou nenhum dia de férias este ano.
Só ralações ;)

E a praia estava fantástica às 7 horas da manhã e a areia convidativa à conversa.
Cristina disse…
dalloway

há muitos ~tempo que não me lembro de me levantar a essas horas. não é que não goste, é que não me dá jeito nenhum. principalmente porque nunca me deito antes das duas, mesmo que esteja cansada.
tenho que mudar de vida:)

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